Venda de cerâmicas de negros escravizados em loja do Aeroporto de Salvador choca redes sociais

“Você imagina que poderia ter um boneco de crianças judias em ‘forninhos’ para serem vendidas como adereços?”, dispara o ativista Antônio Isupério


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Ana Paula Ramos 07/02/2022 21:40 Cidades

Peças de cerâmica retratando negras e negros escravizados à venda, em uma loja que fica no Aeroporto de Salvador, causaram indignação nas redes sociais nesta segunda-feira (7). As imagens foram publicadas pelo historiador carioca Paulo Cruz, que havia visitado a capital baiana e estava no terminal para viajar para o Rio de Janeiro, onde mora.

A exposição das peças deixou indignados o turista e muitas outras pessoas nas redes sociais. Segundo Paulo, as fotos foram feitas no final da tarde de domingo (6).

“Foi um choque tremendo, né? Em primeiro lugar, porque eu acho que é um tipo de coisa que não deve se comercializar em lugar nenhum, muito menos uma cidade como Salvador, principalmente depois da experiência que eu tive, vendo a vivência das pessoas pretas, dos movimentos e tudo mais”, disse o historiador ao Portal G1. A família materna de Paulo é de Salvador.

“Foi realmente muito chocante. Primeiro a sensação foi de choque e depois de indignação”, descreveu.

As peças, em alusão ao sistema escravocrata que durou oficialmente até 1888 no Brasil, mostram mulheres e homens acorrentados pelas mãos. Vendidos como “obra de arte”, as cerâmicas estavam na prateleira principal da loja, com uma etiqueta: “Escravos de cerâmica – R$ 99,90, a unidade”.

“Além do tremendo mau gosto, uma questão nitidamente racista, porque é de mau gosto você colocar uma obra identificada como ‘escravos’ e com preço”, argumenta Paulo Cruz.

A repercussão ganhou força depois que o ativista Antônio Isupério, com mais de 83 mil seguidores nas redes sociais, compartilhou a revolta do historiador e criticou a venda nas redes sociais.

“Você imagina que poderia ter um boneco de crianças judias em ‘forninhos’ para serem vendidas como adereços? Então, isso não acontece porque o repúdio à violência do Nazismo já está em domínio público, enquanto nós negros ainda estamos em processo de conquista da nossa humanidade”, escreveu Antônio Isupério.

 

Loja publica retratação

Após a repercussão nas redes sociais, a loja Hangard das Artes publicou uma nota de retratação na qual tenta justificar a venda da cerâmica e pede desculpas às pessoas que se sentiram feridas e menosprezadas.

Em nota, a Vinci Airports, que administra o terminal aéreo, informou que recomendou a retirada dos produtos do estoque, após tomar conhecimento da comercialização de peças “que remetem à desonrosa atividade da escravidão no Brasil” em uma das lojas que ficam dentro de suas dependências.

A empresa ressaltou que não determina a curadoria dos produtos vendidos por cada subconcessionário. No entanto, afirmou que a administração entendeu que era fundamental se posicionar nesse caso.

A Vinci Airports acrescentou que trabalha para construir uma comunidade antirracista e reafirma o compromisso com a diversidade e valorização da cultura afro.

 

Confira íntegra da nota

“A loja Hangar das Artes vem a público se retratar e esclarecer os fatos ocorridos na manhã de hoje (07/02/2022).

Trata-se de uma empresa que emprega inúmeras pessoas, atuante no mercado de artesanato e obras de arte há mais de 20 anos, comercializando e divulgando a confecção de obras de diversos artistas regionais, sempre incentivando a produção daquele pequeno artesão cujo seu sustento depende exclusivamente de sua arte.

Todas as obras que exibimos são voltadas para a exaltação da cultura e história baiana e brasileira. Nossa loja está localizada no Aeroporto de Salvador e sempre exaltou as diversas culturas, com ênfase na cultura africana, já que temos orgulho de demarcar que somos, provavelmente, a cidade mais negra fora de África. Sempre com muito respeito e admiração.

As imagens que estão circulando, de algumas de nossas esculturas, tratam-se da imagem do Preto(a) Velho(a) – espíritos que se apresentam sob o arquétipo de velhos africanos que viveram nas senzalas, majoritariamente como escravos, entidades essas que trabalham com a caridade e cuidam de todas as pessoas que os procuram para melhorar a saúde, abrir caminhos e ter proteção no dia a dia. Por isso, algumas das peças possuem correntes, na tentativa (ERRÔNEA) de retratar a história dessa entidade de maneira literal. Erramos na forma em que as peças foram expostas e em descrevê-los apenas como escravos, apagando, de certa forma, a história que carrega.

Pedimos nossas mais sinceras desculpas a todos que se sentiram feridos e menosprezados pela maneira como conduzimos às coisas. Nossa intenção JAMAIS foi menosprezar, ferir ou destituir da imagem de uma entidade tão importante e a potência de sua história. Nossas correntes foram quebradas! E não queremos de maneira alguma trazer de volta memórias desse passado tenebroso e vergonhoso.

Por isso, retiramos todas as peças de circulação a fim de minimamente nos retratar diante do ocorrido. Sabemos que não se apaga o que foi feito, mas reconhecemos a nossa falha e não tornaremos a repeti-la, não só pela repercussão que houve e sim por não condizer com a nossa verdade.

Nossas sinceras desculpas pelo ocorrido”.

 

* Com informações do Portal G1

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