Diplomata da ONU diz que fé se tornou um instrumento de poder
Para Brandão, que trabalha há mais de 20 anos com a resolução de conflitos, maioria das guerras são originárias da tentativa de misturar religião e política
Na cidade ucraniana de Vinnytsia, onde atua para levar assistência à população atingida diretamente pela guerra no país, o diplomata brasileiro das Organização das Nações Unidas (ONU), Gerson Brandão, afirmou que a maioria das guerras são originárias da tentativa de misturar religião e política. A “fé se tornou um instrumento de poder”, por isso, é tão “importante separar a política da religião”.
Em entrevista ao colunista do A Tarde e editor-chefe do Portal M!, Osvaldo Lyra, o diplomata, que já trabalha há mais de 20 anos com a resolução de conflitos e gestão de catástrofes, enumerou ainda que entre as 31 situações de conflito que a ONU atua ao redor do mundo, 28 são de conflito armado. “E desses 28 conflitos armados, 21 têm fundo religioso”, observa.
“Há vários estudos que confirmam que a fé se tornou um instrumento de poder. Através da fé, através do nacionalismo, você mobiliza populações, e através dessa mesma fé você cria conflitos que podem servir a um projeto de poder. É uma forma de manipulação, e infelizmente todos nós estamos sujeitos a isso. Em um momento de dificuldade, nós buscamos a fé, e hoje em dia nós sabemos que essa fé pode ser manipulada. E nós vemos que a fé é manipulada. Se eu puder te dar um número, entre as 31 situações de conflito que a ONU acompanha e atua ao redor do mundo, dessas 31 situações, 28 são situações de conflito armado. E desses 28 conflitos armados, 21 têm fundo religioso”, explica.
Para Gerson, a instabilidade global é causada, principalmente, quando a fé é manipulada com um propósito político, o que torna muito importante separar a política da religião. Segundo ele, “onde a religião se torna uma plataforma para um projeto de poder, você cria um conflito”.
Religião deve se limitar a um espaço de culto, um espaço de fé. A religião não deve se misturar com a política. Porque a consequência da mistura da política com a religião é bem clara, e as situações de conflito que a gente vê ao redor do mundo são consequências dessa mistura entre política e religião, e a religião sendo utilizada como projeto de poder. Então, sim, a religião é aquilo que nós faz crescer como pessoas, e a palavra de Deus, seja lá como a gente quer chamar esse Deus, não deve se rever a nenhum propósito político. Então, acho que começa com essa separação entre a política e a religião”, avalia.
Questionado por Osvaldo Lyra sobre a ascensão de intolerância religiosa observada no governo Jair Bolsonaro, no Brasil, o diplomata disse que, apesar de ser brasileiro, não tem acompanhado o cenário nas últimas semanas. No entanto, ele lembrou que o país é constitucionalmente laico, sendo muito importante garantir essa laicidade. Gerson defendeu ainda que os governos devem trabalhar para garantir a chamada “democracia racial”.
“No momento em que você mistura a política com a religião e quando a fé das pessoas se transforma em um projeto de poder, você acaba dividindo o país. Durante muitos anos, a gente sempre falou da democracia racial no Brasil. Inclusive eu me lembro que há pouco tempo eu participava de uma conferência no Brasil e alguém, um dos participantes, criticava a ONU por falar de democracia racial. E, sim, em um determinado momento, um colega relator da organização falou de democracia racial, mas, neste momento, é mega importante a gente fazer a separação entre democracia e harmonia. Nós não temos uma harmonia racial, não temos uma harmonia religiosa. E é obrigação do estado trabalhar por essa harmonia”, diz.
“No momento em que a fé é utilizada como projeto de poder, você imediatamente deixa de trabalhar pela harmonia que deveria existir entre as religiões. Você passa a favorecer uma religião para que ela seja superior a outra. Então, sim, existe uma responsabilidade do estado, dos governos em trabalhar por essa harmonia racial, religiosa e obviamente harmonia social. E a gente sabe que a religião tem um papel importante dentro dessa harmonia que nós buscamos”, completou.
Confira entrevista:
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