Para analistas, PT não construiu candidato que dialogue com Salvador

Especialistas avaliam que o partido não trabalhou um nome natural e sofreu desgaste para aprovar Geraldo Jr., do MDB


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Raiane Verissimo 22/12/2023 08:20 Política

A escolha do candidato da oposição a prefeito de Salvador virou uma novela que parecia interminável até a noite de quinta-feira (21), quando o governador Jerônimo Rodrigues (PT) anunciou o seu vice, Geraldo Jr., como o nome que vai representar o grupo nas eleições de 2024.

Antes de Jerônimo bater o martelo, o capítulo que mais chamou atenção foi a cobrança do presidente Lula ao questionar como era possível que o PT já governasse o estado há 17 anos, mas nunca tenha conseguido emplacar ninguém no comando do Palácio Thomé de Souza.

Analistas ouvidos pelo Portal M! afirmam que o motivo seria a legenda não construir um candidato que dialogue com a capital baiana. Além disso, não tem trabalhado, nos últimos anos, uma candidatura natural, que mesmo numa eventual derrota à Prefeitura de Salvador, possa ser útil para eleições de 2028 e até antes disso, em 2026.

Um erro que é sempre apontado por figurões do governo diz respeito à condução dada para a ex-candidata Denice Santiago, que, logo após a eleição, foi escanteada pela cúpula do governo Rui Costa.

O entendimento hoje é que, se Denice tivesse ocupado espaços de poder importantes, ela teria sido eleita deputada federal na última eleição, se tornando um nome factível para a próxima disputa na capital baiana. Mas isso não aconteceu. A ex-dirigente passou a ocupar cargos de terceiro escalão, sendo inviabilizada como nome do grupo para o próximo ano. 

Projeção eleitoral

Em entrevista ao Portal M!, o cientista político Cláudio André de Souza afirmou que o “PT tem votações expressivas pra governador, por exemplo, mas quando chega em eleição municipal, o partido cai, deixa de ter base”. E a principal hipótese, segundo ele, é de que “falta no PT de Salvador lideranças políticas com projeção eleitoral”. 

“Não é necessariamente falta de adesão, parceria, estratégia de construir a imagem em torno de Lula como liderança nacional do partido. Então, do ponto de vista de estratégia eleitoral, o PT jogou a toalha. Não pensou lá em 2014, quando Rui [Costa] ganhou, que precisava construir um nome pra 2016, seja no PT ou no PCdoB. Também não construiu essa possibilidade em 2020. Então, a grande questão que eu acho que está colocada, para além das eleições, é que estratégia o PT vai construir para essa eleição, mas que já dialogue com 2028”, pontuou.

Assim como o cientista político, o historiador Carlos Zacarias, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), acredita que, mesmo tendo o presidente Lula como cabo eleitoral, o PT não trabalhou um nome “competitivo”. Ele lembrou que os petistas Nelson Pelegrino e Walter Pinheiro foram os últimos candidatos mais fortes da legenda, mas, mesmo assim, não conseguiram se eleger.

Tanto Cláudio quanto Zacarias ressaltaram ainda, em entrevista ao Portal M!, o fiasco da candidatura da outsider Major Denice, capitaneada pelo então governador Rui Costa e filiada ao PT de última hora.

Após perder a eleição ainda no primeiro turno para o prefeito Bruno Reis (União Brasil), que deve concorrer à reeleição no próximo ano, Major Denice saiu de cena e foi esquecida pelo partido – um erro na visão de ambos, pois poderia ter sido eleita deputada estadual ou federal pelo partido para se tornar a candidata natural do grupo em 2024.

“Que Lula é um bom cabo eleitoral não há nenhuma dúvida na Bahia e em Salvador. O fato de ele ser um bom cabo eleitoral na capital do estado não significa que ele vai desbancar o candidato de ACM Neto. O PT não tem quadros que, até o momento, façam isso”, disse o historiador ao analisar a pré-candidatura do deputado estadual Robinson Almeida (PT), que não vingou e o espaço foi ocupado pelo emedebista Geraldo Jr.

“Do ponto de vista da carreira política, vários prefeitos viram deputado federal para trabalhar o nome e depois, de fato, disputar a prefeitura de uma determinada capital, como João Campos, no Recife, e João Henrique Caldas, em Maceió. ACM Neto aqui em Salvador, foi deputado federal em 2002, 2006 e 2010 até conseguir vencer a eleição em 2012. João Henrique não foi deputado federal, mas foi vereador e depois o deputado estadual mais votado em Salvador. É o caso agora, por exemplo, da deputada Olívia Santana, do PCdoB”, completou o cientista político. 

Bruno Reis (União Brasil)

Atá o anúncio de Geraldo, a duradoura falta de consenso sobre quem sairia candidato pela oposição passou também, segundo os analistas, pela questão de quem teria capacidade para desbancar o atual prefeito, cuja avaliação positiva de sua gestão é “alta” e “consolidada”. 

Segundo Cláudio André, Bruno Reis “é visto como um candidato à reeleição muito forte, inclusive, a própria história de vida dele, a trajetória que ele fez até virar prefeito foi de muito foco em Salvador”. 

“Ele foi deputado estadual e dentro dessa perspectiva de ser vice-prefeito durante quatro anos, ele conseguiu de fato construir uma relação com a cidade”, destacou.

Para Cláudio André, o candidato do governador tem o desafio extra de entregar, mesmo num cenário de derrota, aquilo que ele chama do ‘piso’ – os 35% que Jerônimo conquistou em Salvador nas eleições passadas. “Ele pode também se utilizar de uma estratégia de pensar 2026, então quem se destacará em Salvador estará mais ou menos ali alinhado com uma organização política para pensar as estratégias da sua reeleição”, projetou.

O cientista político disse ainda ao Portal M! que “quando se tem um governo muito bem avaliado, a entrada na disputa já envolve o cálculo da derrota”.

“O desejo do Planalto é estabelecer um diálogo mais forte, estratégico com o União Brasil. Isso passa hoje pela questão do nome de Elmar Nascimento para a presidência da Câmara em 2025, pela perspectiva de cogitar Paulo Azi como ministro. A própria relação do União Brasil de estar mais presente numa adesão a Lula nesse processo, inclusive, de criação de uma relação mais estratégica pra enfraquecer, diminuir a influência do Centrão”, avalia.

Para ele, o cenário objetivo que está colocado é que nada garante que Bruno Reis não vá, por exemplo, aderir a Lula no processo eleitoral no ano que vem. “Eu vejo em aberto, apesar da proximidade com João Roma, de uma conversa ali mais de sobrevivência política. Eu entendo que,  pelo pragmatismo, isso não pode ser descartado. Ou seja, pode ser exatamente um trunfo de Bruno Reis para dizer que agora o partido dele faz parte do governo Lula”. 

Geraldo Jr. (MDB)

Antes de Jerônimo anunciar ter batido o martelo sobre o assunto,  o principal entrave para a escolha do vice-governador Geraldo Jr. (MDB) era o objetivo de ter um nome petista na disputa em Salvador para que, mesmo numa eventual derrota, pudesse ser melhor trabalhado para 2028.

Um segundo obstáculo seria “ascender uma nova liderança, e de Centro”, o que poderia dificultar ainda mais o processo eleitoral – e as aspirações petistas – em 2028. 

Antes do anúncio da escolha de Geraldo, o historiador Carlos Zacarias disse que o vice-governador  “teria força, mesmo não sendo um candidato de esquerda”, mas alertou que a definição por ele forneceria   “um ônus e um bônus”.

“Ele penetra espaços que o PT não tem, isso é o bônus. Como ele foi um vereador muito bem votado, foi presidente da Câmara Municipal e hoje é vice-governador, tem essa penetração com relação a bases comunitárias. E o ônus é o fato de não sendo um candidato do PT, claro que a militância não se mobiliza como se mobilizaria numa candidatura petista. Sabemos que o PT tem militante, não é um partido qualquer, é um partido cuja base tem militantes engajados, mas esses não se engajariam efetivamente no seu conjunto para uma candidatura que não fosse do PT ou do campo da esquerda. Porque todos sabem que Geraldo Jr. não é da esquerda, faz parte dos partidos de oposição”, avaliou.

Para o cientista político Claudio André, o maior desafio é como o PT pensa, do ponto de vista partidário, ao “entregar o bastão de uma liderança política, que é o caso de Geraldo”. Segundo ele, quanto mais o vice-governador decolar na política baiana maiores as chances de se eleger como deputado federal mais votado na Bahia ou um dos mais votados em 2026, o que prejudicaria novamente uma candidatura petista à Prefeitura de Salvador em 2028.

“Se ele sai candidato e ganha, vira um dos grandes nomes da política baiana, passa a governar a capital. Se ele perde, ele sai maior do que é na política, porque ele era vereador. E, obviamente, isso vai ter impacto no trabalho que o PT faz em Salvador. A derrota de Jerônimo em Salvador já era esperada, mas eu vejo que o PT, inclusive, nutria na campanha do ano passado uma expectativa de perder com uma diferença menor de votos. Se Geraldo Jr. não estiver na chapa majoritária em 2026 e ele sair a deputado federal, obviamente que Salvador se torna a sua principal base eleitoral e isso influencia a chapa do partido”, disse ao Portal M!

Leia também:

Jerônimo bate o martelo: Geraldo Jr. é pré-candidato à Prefeitura de Salvador

 

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