“Haddad está fazendo o papel dele, mas temos visão divergente”, diz Gleisi
Ministro da Fazenda diz que não é verdade que déficit faz economia crescer, após deputada criticar meta
A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), voltou a dizer que tem divergências com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e que defende que a resolução, cujo texto-base já foi aprovado na sexta-feira (8), na Conferência do PT, mantenha a expressão “austericídio fiscal” e as críticas ao Centrão.
“O ministro Fernando Haddad está fazendo o papel dele como ministro da Fazenda. Ele tem a visão dele e nós temos uma visão um tanto quanto divergente, que foi exposta tranquilamente ali. Eu falei que via que com a economia caindo um pouco, seria necessária a presença maior do Estado”, disse a jornalistas em coletiva após o encerramento do painel em que discutiu a política econômica do governo com Haddad.
Questionada sobre alterações no texto da resolução do partido, que tinha ataques ao Centrão e ao ‘austericídio’ fiscal, ela disse que emendas serão apresentadas até este sábado (9), e que o texto pode ser alterado, porque o que não for consenso será votado. “Não vejo problema em citações na resolução. Eu concordo com o que está na resolução”, disse.
Ela afirmou, no entanto, que o ‘austericídio’ não era uma crítica ao governo. “Não é uma crítica ao governo. Dizemos que não podemos nos guiar por uma política de ‘austericídio’ fiscal. Queremos que os investimentos aconteçam, os programas sociais saiam”, disse.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, explicou que essa relação não é automática e citou como exemplo as gestões anteriores de Lula, em que houve superávit primário de 2% e a economia cresceu, em média, 4%.
“Não é verdade que déficit faz crescer. De dez anos para cá, a gente fez R$ 1,7 trilhão de déficit e a economia não cresceu. Não existe essa correspondência, não é assim que funciona a economia. Dependendo da situação econômica você tem que ampliar os investimentos”, disse e, em seguida, citou a expansão de gastos de 2009, na esteira da crise econômica global de 2008.
Pouco antes, Gleisi havia destacado medidas tomadas anteriormente por Lula, como a ampliação das reservas cambiais, e o aumento do investimento estrangeiro no país para dizer que confiança “não tem nada a ver com o fiscal”. “Este ano, faremos déficit de quase 2% do PIB”, disse.
O Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do 5º bimestre ampliou a estimativa de déficit primário total de 2023 para R$ 177,4 bilhões (1,7% do PIB). No relatório bimestral de setembro, a estimativa de rombo total era de R$ 141,4 bilhões (1,3% do PIB). A meta de resultado primário do Governo Central deste ano é de saldo negativo de até R$ 213,6 bilhões (2% do PIB), no valor ajustado divulgado neste documento, mas a Fazenda chegou a prometer no começo do ano um rombo bem menor, de 1,0% do PIB ou cerca de R$ 100 bilhões.
Gleisi disse que este governo fez campanha política com discurso expansionista, e que o mercado já sabia o que seria feito. Ela voltou a dizer que a política monetária está fora do alcance de gestão do governo, mas a política fiscal, não.
“Por que vamos nos impor um autolimite quando não precisamos disso? Vamos sair de um déficit de quase 2% para um déficit zero, temos de colocar isso”, disse a Haddad.
Haddad afirmou que, apesar de terem pontos de vista diferentes, o foco do debate não era a discordância entre ele e Gleisi. O ministro da Fazenda defendeu uma pactuação do Orçamento, privilegiando a qualidade do gasto, e reconheceu que a política monetária tem uma gordura maior para cortar do que a fiscal.
“Graças a nossa política, o BC ficou constrangido a baixar os juros; Fez isso pelas circunstâncias. Com o dólar caindo, a inflação acomodando, qual é a justificativa para manter a taxa de juros?”, questionou.
O ministro pontuou, no entanto, que a conjuntura é complexa e o governo não ganhará por nocaute ou bala de prata, defendendo que o Planalto está colocando as coisas nos devidos lugares. Ele também defendeu o papel da Fazenda na negociação e disse que com os assuntos muito técnicos, qualquer vírgula pode significar bilhões.
“Eu acho que a gente consegue apertar os parafusos de um jeito que o juro cai, economia cresce, resolve algum nó tributário, de quem não paga funcionário, traz para dentro do sistema. Mas não tem bala de prata, não existe. É um conjunto de medidas que tem de ser tomadas para organizar uma saída para fazer a economia crescer com consistência”, defendeu.
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