Diretor do Instituto Brasil-Israel repudia uso da bandeira israelense por Michele Bolsonaro

“A primeira-dama conclui o papel que vem exercendo de transformar o ato político em uma missão religiosa”, diz


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redacao 30/10/2022 13:23 Política

Neste domingo de eleição (30), a primeira-dama Michelle Bolsonaro compareceu às urnas vestida com uma camiseta estampando a bandeira de Israel. Para Daniel Douek, diretor do Instituto Brasil-Israel (IBI), “ao votar vestindo uma camiseta com a bandeira de Israel, a primeira-dama conclui o papel que vem exercendo na campanha do marido de transformar o ato político da escolha de um candidato em uma missão essencialmente religiosa”.

Douek ainda ressalta que, “o símbolo não representa nem traduz a similaridade de valores entre os dois países, ainda mais quando questões antidemocráticas estão em jogo”.

Desde sua primeira campanha eleitoral para presidente, Jair Bolsonaro (PL) utilizava do símbolo de Israel para associar sua imagem ao conservadorismo, o que, para o diretor do IBI, “já surpreende, uma vez que o país do Oriente Médio adota medidas mais progressistas no campo dos costumes, como acesso ao aborto, proteção de direitos a pessoas LGBTs e o controle rígido de armamentos.”

Além disso, trata-se de um local cosmopolita, “onde abriga uma das maiores paradas gays do mundo, lidera na aplicação medicinal de cannabis, já descriminalizou a posse de maconha, tem uma legislação bastante flexível sobre o aborto, ou seja, pensamentos totalmente contraditórios aos do presidente Bolsonaro”.

Para além da tentativa de mostrar similaridade inexistente em alguns temas, Douek também destaca que o costume de uso da bandeira de Israel cria confusões entre judeus e apoiadores de Bolsonaro.

“A comunidade judaica brasileira possui cerca de 120 mil pessoas e é plural. Existe judeu rico e judeu pobre, judeu branco e judeu negro, judeu de direita e judeu de esquerda. O uso da bandeira de Israel, assim, tem menos a ver com a comunidade judaica do que com apoiadores evangélicos do presidente, pelo lugar que o país ocupa em sua doutrina religiosa”.

A tese é reforçada por Michel Gherman, historiador e assessor acadêmico do IBI, coordenador do Niej (Nucleo de Estudos Judaicos da UFRJ) e autor do livro “O não judeu judeu, a tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo”.

Para ele, “trata-se de uma Israel imaginária esta que o Bolsonarismo cultua, a Israel armada, branca, cristã fundamentalista e ultra-capitalista. É uma Israel que se estabeleça como barreira contra a expansão do Oriente e que seja vista com uma gramática profundamente vinculada à ausência do judeu de verdade, que é múltiplo, diverso, contraditório, que vota na direita mas também na esquerda exercendo a mais ampla democracia”, destaca Gherman.

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