Espetáculo “Quem não morre não vê Deus” celebra os 60 anos da Companhia Teatro dos Novos

Com direção de Marcio Meirelles e texto censurado de João Augusto, a montagem estreia virtualmente dia 5 de março


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redacao 24/02/2021 09:48 Cultura

“Quem não morre não vê Deus” é o novo espetáculo da Companhia Teatro dos Novos, que estreia no próximo dia 5 de março com exibição em ambiente digital. A peça de João Augusto, artista fundador do Teatro Vila Velha, foi censurada durante a ditadura militar

A montagem se passa nos anos 30 e usa a poética de cordel para falar sobre a relação do povo com regimes totalitários. O espetáculo fica em cartaz até 21/03 (sextas, sábados e domingos) sempre às 20h, no Novo Vila Virtual, palco online do Teatro Vila Velha. Os ingressos esta~o a` venda no Sympla (sympla.com.br/vilavelha) e custam R$10, R$20 e R$ 50. Fica a crite?rio do comprador pagar um dos tre^s valores.

Com direção de Marcio Meirelles, o espetáculo busca estabelecer um diálogo entre o teatro em plataformas digitais e a tradição do cordel, que foi base para João Augusto construir sua pesquisa, nos anos 60 e 70, período da ditadura no Brasil, e razão pela qual “Quem Não Morre Não Vê Deus” foi censurada diversas vezes e nunca encenada pelo autor, mesmo após diversas tentativas.

Segundo João Augusto em carta aos atores, não fazia mais sentido montar a peça com os cortes que sofreu. O espetáculo só foi encenado anos depois pelo Teatro Livre da Bahia em 1981 e pela Cia dos Novos e Bando de Teatro Olodum em 2003.

Marcio Meirelles pesquisa há anos a interação entre teatro e os novos meios de transmissão. Fez espetáculos que investigavam a presença virtual do ator e do público, como Bença, Drácula, Olho de Deus e, em agosto de 2020 estreou o primeiro espetáculo da Companhia Teatro dos Novos feito totalmente em plataforma virtual, Fragmentos de um teatro decomposto. 

“Esta montagem é também parte da celebração dos 60 anos da Companhia Teatro dos Novos e traz à cena a valorização da história e da memória de um país que sempre esquece seu passado. Com esta montagem a cultura popular e a cultura digital, no webteatro, mesclam linguagens e tempos, comprovando a atualidade do cordel.”, revela o diretor. 

A história se passa numa cidade do interior, na qual os moradores se veem encabulados com a notícia de que dois homens, perseguidos pela polícia, querem pousar na cidade. A contragosto, os habitantes acabam aceitando os visitantes e desenvolvem uma relação que vai de desconfiança a uma união que gera grandes riscos.

Nos arquivos do Teatro Vila Velha, foram encontradas três cópias do texto, com diferenças entre elas. Uma delas, a de 1981, revela que a peça foi escrita em 1972 em homenagem a Carlos Lamarca, já a outra, aponta que o texto foi escrito em 1977. Sabe-se que João Augusto re-trabalhava seus textos cada vez que os encenava, e como nunca fez uma estréia desse, acredita-se que alguma coisa não o satisfazia. 

Quem Não Morre Não Vê Deus se difere das demais adaptações e peças originais de João Augusto nesse gênero de teatro que criou. Diferente das outras, a peça não vem de nenhum folheto, não segue a mesma linguagem, não tem narrador, é mais longa, e também não é feita em versos – as outras, ainda que escritas como prosa, conservam a métrica e as rimas dos originais. 

O ponto de encontro deste texto com os demais está nos assuntos abordados, nas citações de Zé Limeira e até na reutilização de um trecho de “Encontro de Chico Tampa com Maria Tampada”. Desta forma, Quem Não Morre Não Vê Deus toma emprestado da literatura de cordel mais o tema do que a forma. 

O desafio de dar vida a esta história, utilizando apenas plataformas virtuais, trouxe também uma série de vantagens. A assistente de direção e uma das autoras do projeto, Clara Romariz, revela que a obrigatoriedade de isolamento trouxe a questão de como fazer teatro, mas também a descoberta de que fazê-lo de forma virtual é uma possibilidade que amplia o alcance e leva o espetáculo a um público maior e diversificado, sobretudo, geograficamente. 

“Os Novos já trabalham no webteatro, mas é preciso aprofundar esta pesquisa e continuar, como há 60 anos, experimentando novas possibilidades para o teatro e seu público. Neste projeto unimos uma manifestação tradicional da cultura do Nordeste para atender a um publico e alcançar novos, mostrando que a tecnologia e a memória não são conceitos opostos e podem estar interligados”, reforça Romariz.

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal. 

Quem é João Augusto?

João Augusto Azevedo nasceu no Rio de Janeiro em 15/01/1928. Realizou seus estudos secundários no Colégio Pedro II e estreou no Teatro do Estudante do Brasil. Foi um dos fundadores d’O Tablado, ao lado de Maria Clara Machado, onde trabalhou de 1951 até 1956. 
Foi também um dos fundadores do Teatro de Fantoches de Brighela. Ao longo de sua carreira, João atuou como contra-regra, sonoplasta, iluminador, ator, adaptador, tradutor, autor, cenógrafo, figurinista e animador. 

Além disso, criou seu próprio grupo, o Teatro sem Nome, onde estreou como autor, com “A matrona de Epheso”, em 1948. Em 1956 João Augusto integrou  o grupo que criou a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, onde lecionou nas disciplinas de Formação do Autor e História do Teatro. 

Devido a diferenças pessoais e ideológicas, um grupo de alunos liderado e apoiado por João, rompeu com Martim Gonçalves, diretor da Escola, e em 1959 criam o primeiro grupo profissional da Bahia, a  Sociedade Teatro dos Novos. Apesar das diferenças, em 1963, João Augusto voltou a lecionar na UFBA. 

Além de peças e recitais de poesia, João Augusto dirigiu vários espetáculos musicais de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa, além de ter sido o primeiro diretor do Teatro Castro Alves e colunista do jornal A Tarde. Em 1966 criou o “Teatro de Cordel”, e a partir daí desenvolveu várias experiências com esse gênero literário com os Novos e com o Teatro Livre da  Bahia. João morreu de câncer em 25 de novembro de 1979. 

 

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