Professor atribui desempenho brasileiro no Pisa a desafios estruturais e impactos da pandemia

Resultados da avaliação internacional apontam para a necessidade de transformações profundas, segundo Nelson Pretto


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redacao 10/12/2023 08:00 Cidades

Com o recente anúncio dos resultados do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mostram o país ainda na parte inferior do ranking, o Portal M! buscou a  análise especializada do professor Nelson Pretto. Para ele, há questões estruturais graves que levam ao fracasso e ajudam a compreender o cenário. Ele também critica o modelo de avaliação do Pisa e  propõe soluções abrangentes para impulsionar a qualidade da educação nacional.

O Pisa é uma iniciativa trienal conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 81 países. O exame avalia o desempenho dos estudantes de 15 e 16 anos nas áreas de Matemática, Leitura e Ciências, fornecendo uma análise comparativa internacional.

A pontuação média do Brasil em Matemática foi de 379, situando-se 93 pontos abaixo da média da OCDE, que é de 472 pontos. Na avaliação de Leitura, o país obteve 410 pontos, uma diferença de 66 pontos em relação à média global de 476. Em Ciências, o desempenho brasileiro ficou 82 pontos aquém da média, registrando 403 pontos.

Os resultados do Pisa evidenciam ainda que o desempenho em Matemática dos alunos brasileiros está diretamente ligado ao status socioeconômico, representando 15% da variação nos resultados, tanto no Brasil quanto na média da OCDE. Entretanto, mesmo os alunos mais ricos no Brasil apresentaram desempenho abaixo da média.

Na análise de Nelson Pretto, mestre em Educação pela UFBA e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, diversos fatores influenciam os resultados. Ele destaca, inicialmente, a natureza questionável e discutível dos exames internacionais de grande escala, enfatizando a necessidade de interpretar essas métricas com cautela. Pretto reforça que os dados divulgados neste ano referem-se ao período de 2018 a 2022, coincidindo com os impactos da pandemia de Covid-19.

“O brasileiro enfrentou sérios problemas na pandemia. Tivemos um grande desafio, que, do meu ponto de vista, considero equivocado e excessivo. Nesse período, houve uma ênfase exagerada nos conteúdos, desde o processo mais amplo de formação. É claro que aulas pela televisão e o envio de material para casa não foram suficientes para qualificar o estudante, permitindo que ele se submeta efetivamente a esses exames, que exigem habilidades de raciocínio”, disse.

Entre as áreas avaliadas, Matemática foi a de pior desempenho do país, revelando que sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram o nível mínimo esperado.

Neste contexto, o professor explica que, em termos de efetividade, todas as áreas enfrentaram consideráveis desafios devido à pandemia. Em especial, ele destaca que disciplinas como Matemática, nas quais a interação com o docente e a abstração do conteúdo demandam tranquilidade na relação professor-aluno, foram particularmente prejudicadas pela falta desses elementos durante o período pandêmico.

“As condições estruturais das escolas brasileiras, e principalmente da escola pública, deixam a desejar. Essas avaliações pecam, pois esperam que os estudantes superem todas as demandas estruturais do sistema, o que vai demandar dos governantes melhorar essas condições. Isso tudo, obviamente, requer uma atenção maior de cada dirigente municipal, estadual, porque a educação é um sistema”, completou Pretto.

Para melhorar o desempenho do Brasil, o professor destaca a urgência de uma transformação radical na educação, propondo a adoção de escolas em tempo integral. Ele enfatiza que “o processo é gradual, demandando investimentos constantes, formação permanente de professores e a necessidade de superar a lógica tradicional do contraturno”, a fim de enfrentar os desafios educacionais e recuperar o tempo perdido.

“Na verdade, é preciso deixar de lado as avaliações em grande escala e se concentrar na formação abrangente dos estudantes, abordando três pilares fundamentais: formação inicial e continuada dos educadores, melhorias nas condições concretas de trabalho, que englobam infraestrutura escolar, bibliotecas, refeitórios, tecnologia, e outros, além da valorização salarial. Essas medidas devem ser integradas a uma visão mais ampla da escola, proporcionando um ambiente que reencante a juventude”, pontuou Pretto.

Educação a distancia 

Questionado sobre a qualidade da Educação a Distância (EaD) na formação de professores, especialmente no curso de Pedagogia, o professor Nelson Pretto destacou que o problema não reside na modalidade em si, mas na má qualidade da formação oferecida. Ele enfatiza a importância de não apenas questionar os cursos a distância, mas também as instituições que os ministram, incluindo todas as licenciaturas.

Recentemente, o ministro da Educação, Camilo Santana, tomou medidas para reduzir a oferta de cursos 100% EaD, autorizando uma diminuição que pode variar entre 30% e 50%.

“A Educação a Distância requer planejamento, controle e avaliação, e é evidente que a atual situação está relacionada à decisão do governo Bolsonaro de permitir a abertura indiscriminada dessas faculdades, onde os cursos são vendidos sem a devida qualidade, como se estivessem sendo comercializados como bananas”, pontuou.

Para corrigir esse cenário, o professor destaca ser essencial adotar medidas claras, começando pela regulamentação efetiva dessas instituições.

“Uma avaliação aprofundada sobre o desempenho delas, tanto em termos de universidade quanto de cursos específicos. Abrir novos cursos sem um controle rigoroso é inviável. Portanto, é necessário estabelecer um controle mais robusto para evitar que a educação se torne uma mercadoria”, finalizou.

 

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