“Para quem enfrenta o racismo, não há saídas individuais”, afirma o vereador Sílvio Humberto
Professor de Economia da Uefs afirma que o movimento negro lhe deu régua e compasso
Vereador de Salvador em seu terceiro mandato, Sílvio Humberto (PSB), 58 anos, tem uma história de luta no movimento negro e um espírito coletivo que vem da família. Suas bandeiras no Legislativo municipal também são educação, equidade de gênero e diversidade, igualdade e respeito.
“Milito no movimento negro desde os 18 anos. Foi o movimento negro que me deu a régua e o compasso. A família tem me dado a base desse espírito comunitário, de se importar com as pessoas e acreditar que as nossas saídas são coletivas. Para quem enfrenta o racismo, não há saídas individuais”, explicou o professor de Economia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).
Um dos fundadores e presidente de honra do Instituto Cultural Steve Biko, que busca a inserção dos negros no espaço acadêmico como estratégia para a ascensão social e o combate à discriminação racial, o vereador garante que “ações sistêmicas e coletivas” são fundamentais para combater a desigualdade racial no país.
Sobre sua atuação política, ele diz que o objetivo é sempre fazer a diferença. “Por meio da política você pode fazer algo voltado para o bem comum. Não é fácil, mas é necessário”, explicou.
“Tem dias de alegria, dias de frustração, mas nada que você não sobreviva para seguir lutando no dia seguinte, porque os nossos que vieram antes não desistiram. É na história dessas pessoas que você mantém viva a esperança por dias melhores”, afirma Sívio Humberto, que é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Inspiração tanto na educação quanto na política, o professor é humilde. “Você precisa se lembrar que está ali representando as pessoas. Foi o povo que o colocou nesse lugar. O seu orgulho é pensar que você está no caminho certo. Sou parte de uma engrenagem. Temos que ir juntos, não tem lugar para heróis e heroínas. Nosso maior herói é a nossa ação coletiva, somos todos nós”, explicou.
Pautas focadas na igualdade
Na entrevista ao Portal M!, o vereador mostrou-se focado na busca pela igualdade. “Vai além do movimento negro, é da comunidade LGBT, de todos que são subalternizados. Que as pessoas não sejam julgadas pela cor da pele, pela orientação sexual, pela religiosidade, por ter alguma deficiência. É uma luta em favor de que as pessoas tenham boas oportunidades”, explicou.
Sílvio Humberto afirma que é “vereador da cidade de Salvador como um todo, e não vereador de bairro”.
Ele cita uma declaração que o inspira nesta trajetória: “Eu lembro de uma fala de um dos que considero meus mentores, Steve Biko [que combateu o regime de segregação racial do Apartheid]: ‘Ou você está vivo e orgulhoso ou você está morto. Quando você está morto, nada importa’. A cidade precisa ser para muitos. Os direitos básicos alcançam poucos e se transformam em privilégios”.
Momento de crise
O Portal M! também perguntou ao professor de Economia o que é preciso para tirar o Brasil deste momento de crise. Ele foi taxativo: “Mudando a cabeça, o presidente [Jair Bolsonaro]. É um mix de incompetência, inapetência e crueldade. Alguém que não se importa com as pessoas, não tem visão de futuro em relação a esse país, um ególatra”.
“Pobreza nesse país tem cor, é preciso ter essa dimensão para que isso nos leve a pensar em políticas efetivas”, garantiu Sílvio Humberto.
“O Auxílio [Emergencial] deveria virar uma renda básica, tem pessoas que precisam, porque você tem um sistema excludente que não garante igualdade de oportunidade”, explicou.
Além disso, o vereador reiterou que “o racismo diariamente é um destruidor de talentos e de possibilidades. Esse país tem um potencial grande, e esse mês [Novembro Negro] ocasiona essa reflexão para o Brasil se reecontrar com a sua história não oficial”, pontuou.
“O que a gente quer de fato é um Brasil de diversidade, de oportunidade. O gigante precisa se levantar, não ficar deitado eternamente em berço esplêndido”, completou.
Pai de Kiluanji, de 14 anos, o professor tem muito apego à família. Além disso, acredita muito na “felicidade coletiva, na força da espiritualidade”.
Para finalizar, ele reitera: “A discriminação não é só com você, mas é quando você não vê a sua história contada, quando você vê a forma sistêmica do racismo estruturado. Quando você olha as posições de comando em Salvador, quantas pessoas negras temos? E somos 80% da população”.
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