Conheça a 1ª empreendedora de Salvador a vender roupas e acessórios inspirados na cultura africana
Pandemia atrapalhou o trabalho de Luciana Baraúna, mas ela corre atrás do prejuízo com sua loja virtual
A empreendedora Luciana Baraúna, 39 anos, dona da loja Baraúnartes, foi a primeira em Salvador a vender roupas e acessórios voltados ao público negro. Desde então, são 20 anos de dedicação à moda inspirada na cultura africana.
“São roupas, calçados, acessórios ligados à cultura de matriz africana, que remetem à nossa ancestralidade, aos nossos orixás. Tudo dentro dessa nossa cultura. Tinhamos uma loja física, mas fechamos durante a pandemia de Covid-19. Hoje, funciona pela internet”, explicou a também cantora e produtora musical, que viu suas vendas caírem cerca de 70% por causa da crise sanitária.
“Agora, as vendas estão melhorando, mas como fechei o espaço físico fica um pouco mais complicado. Clientes querem ver a peça, pegar, sentir a textura, saber mais sobre”, contou a voz feminina do grupo Ofá, que está à procura de um novo local para apresentar o seu trabalho.
Por enquanto, Luciana Baraúna mostra as suas peças, principalmente os acessórios, por meio do Instagram @baraunartes. Lá, dá para visualizar o belo trabalho realizado pela empresária. “São brincos, colares, braceletes, anéis e roupas em geral em tecidos africano”, detalhou.
Entre os clientes, não faltam nomes conhecidos. “O público é variado. Artistas, cantores, público diverso. Tem Alcione, Flora Gil, Maria Gadú, Fernanda Paes Leme, Alice Wegmann, Pedro Tourinho, Jéssica Ellen, Gilberto Gil, que são meus clientes até hoje”, elenca.
Início por meio da dança
A empreendedora conta que a dança foi a sua porta de entrada no mundo da arte: “Sou Luciana Baraúna, sou cantora, dançarina formada pela Fundação Cultural da Bahia (Funceb). Adentrei a carreira artística com a dança”
Logo em seguida, ele passou a integrar o Terreiro do Gantois, e foi nesta iniciação que nasceu a Baraúnartes. “Sentia a ausência de acessórios que remetessem à nossa cultura. Na Baraúnartes, todos os acessórios remetem aos orixás”, explicou.
“Meu sustento é com a loja. Passei por muitas dificuldades na vida, mas graças a Deus e aos meus deuses segui firme e forte nessa batalha. Fui criada sem pai, sem um direcionamento de uma imagem paterna. Fui criada com minha mãe e minha avó, éramos quatro mulheres”, lembra a cantora. Desde cedo, ela buscou a sua independência financeira.
Uma das principais dificuldades que Luciana encontra para vender as suas peças é a falta de uma boa divulgação. “A gente não tem ainda a oportunidade de estar nos grandes lugares de comércio, como shoppings, por ser muito caro. Nosso trabalho fica oculto. Se a gente não correr atrás não tem uma visibilidade, explicou.
A loja é virtual, mas o trabalho é real – a empresária é quem faz tudo. “A minha loja sou eu e eu mesma. Produzo, sou a vendedora, faço tudo. Sou tudo na minha loja. Tudo sou eu”, brinca.
“Mãe leoa”, como ela mesmo define, Luciana tem no filho Iuri Levy, de 10 anos, a sua inspiração. “Ele é meu porto seguro. É pra Levy que eu vivo”, contou a empresária, que tem um relacionamento de mais de duas décadas com Iuri Passos, 40.

Iuri Passos, 40 anos, Luciana e o filho Levy, de 10 anos. Crédito: Arquivo pessoal.
Voz não se calou
No contato com o Portal M!, Luciana Baraúna mostrou ser uma pessoa cheia de simpatia e muito batalhadora. Durante um show de Ana Carolina, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves (TCA), em 2019, a artista uniu o útil ao agradável. Foi ao local para apresentar suas peças à atração do evento e, enquanto esperava o término da apresentação, soltou a sua voz cheia de alegria, mas por pouco tempo: foi barrada pelo racismo.
“Fui convidada para levar umas peças para Ana Carolina, a pedido dela, e fiquei numa sala VIP. Quando ela entrou no palco, o povo enlouquecidamente começou a cantar, e eu também comecei a cantar. Mas uma mulher que estava à minha frente olhou na minha cara e falou: ‘Para de cantar que não vim aqui para ouvir você cantar, vim para ouvir Ana Carolina. Cale a sua boca que sua voz está me incomodando!’. Tomei um choque, foi um baque. Ando em diversos lugares e nunca fui tratada dessa forma”, explicou.
Assustada com a reação, Luciana respondeu: “A senhora é grosseira”. Em seguida, no entanto, a empresária teve que ouvir algo cruel: “Lugar de preto e pobre é na arquibancada, não é aqui, não!”
Luciana continua: “Isso se tornou uma confusão, as pessoas que estavam no local começaram a retrucar, discutir com ela. Ela me agrediu, ela tentou me segurar pela minha roupa, me engarguelar. Ela estava transtornada e não estava bebendo. Ela foi conduzida para a delegacia, aonde fui e prestei um boletim de ocorrência”.
Apesar da tentativa, ninguém irá conseguir calar a voz de Luciana. A dona da Baraúnartes, inclusive, pede que pautas de combate ao racismo sejam lembradas o ano inteiro, debatidas todos os dias, não apenas no Novembro Negro.
Além disso, ela deixa a seguinte mensagem para quem sofre violências do mesmo tipo: “Não desista dos seus sonhos, sejam fortes como os nossos ancestrais. Lutar sempre! Para chegar a um objetivo é preciso lutar”.
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