“A escola deve ensinar a usar Inteligência Artificial com consciência”, diz professor

Fernando Nunes aborda as influências da IA na educação, além de discutir os efeitos psicológicos na interação entre tecnologia, privacidade e sociedade


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redacao 24/12/2023 08:00 Cidades

A interseção entre Inteligência Artificial, educação e comportamento está em debate na sociedade atual. Para analisar as rápidas transformações tecnológicas, o Portal M! convidou Fernando Nunes, especialista em ensino de informática aplicada à educação, para falar sobre como a IA influencia e é influenciada, além de seu impacto nos padrões de interação social.

Antes de falar sobre os impactos da IA nos padrões de comportamento, o professor adota uma abordagem didática, iniciando com a explicação essencial sobre o funcionamento dos algoritmos.

Ele esclarece que um algoritmo é uma sequência de ações elaborada para resolver um problema, sendo atualmente redigido por meio de linguagens de programação, compreensíveis pelos computadores. Utilizando exemplos práticos, como o teclado do celular, o docente ilustra como esses algoritmos têm a capacidade de aprender com os usuários, destacando a presença de Inteligência Artificial nesse processo. 

“Com algumas técnicas, esses algoritmos conseguem aprender e ficar melhores em uma determinada tarefa. O que chamamos de Inteligência Artificial é um tipo de algoritmo que atua para aprender e adivinhar o ‘próximo passo’. O teclado do celular mostra algumas palavras que são sugestões, porque há um algoritmo que aprende com você, ou seja, uma Inteligência Artificial, que pode agilizar sua digitação”, explica Fernando.

Ao detalhar situações cotidianas, como sugestões de palavras e escolhas em aplicativos de streaming, redes sociais e publicidade online, o professor ressalta o papel quase invisível desses algoritmos na vida diária. 

“Temos também as IAs generativas, como o chatGPT, que é o que trouxe esse tema à tona. Na verdade, não é uma inteligência como a humana, mas é próximo o suficiente para ser confundida como tal. É fundamental que a escola se adapte para incluir a IA nas aulas, trazendo uma crítica com relação ao uso a partir do posicionamento da ciência, segurança, impacto social e confiabilidade das informações. O papel da escola é o mesmo que deve ser feito com qualquer tecnologia: ensinar o que é a tecnologia, ensinar a usar e usar com consciência”, aponta Nunes. 

Questionado sobre o papel da educação na conscientização sobre como a exposição aos algoritmos pode influenciar as preferências das pessoas, o professor destaca que a finalidade primordial desse sistema é manter os usuários o máximo de tempo possível na plataforma.

“Já podemos observar as IAs reproduzindo preconceitos presentes na sociedade, como a diminuição das chances de mulheres em processos seletivos e o não reconhecimento de rostos de pessoas negras em softwares de desbloqueio facial. Precisamos observar que os algoritmos não são politicamente neutros; eles obedecem aos interesses de quem os escreve ou exerce poder sobre os programadores. Como espaço de privilégio do saber, embora não o único, a escola tem o papel de trazer uma crítica e pensar, junto aos alunos, em formas de minimizar os efeitos nocivos das ferramentas, fazendo usos cada vez mais produtivos e criativos delas”, ponderou.

Interação entre IA, privacidade e autonomia 

O professor aborda a interseção entre Inteligência Artificial e autonomia individual ao enfatizar o impacto significativo das redes sociais no conceito de privacidade. Ele destaca como somos incentivados a compartilhar intimidades em troca de validação, expressa através de ‘likes’. O docente ressalta a falta de acesso público aos algoritmos de recomendação, mas destaca a possibilidade de estudá-los por meio de seus efeitos.

“Especialistas apontam que em redes sociais que envolvem imagem, como o Instagram, quanto maior a área da pele mostrada na imagem, mais ela é entregue para pessoas e mais curtidas acaba recebendo. As Inteligências Artificiais vão melhorando cada vez mais usando nossos dados. Por essa razão, especialistas em segurança recomendam muita cautela à exposição de dados sensíveis nas redes sociais, e eu também recomendo a pais e professores que orientem crianças e adolescentes nesse sentido, especialmente agora com as IAs generativas”, reforça.

Uma educação eficaz, segundo o professor, capacita os alunos com autonomia, pensamento crítico e consciência sobre questões contemporâneas e tecnologias emergentes. Ele destaca o papel da escola ao integrar a tecnologia de maneira reflexiva, incentivando os alunos a se distanciarem da posição de consumidores acríticos e a se tornarem participantes conscientes no uso dessas ferramentas.

Efeitos psicológicos

Em relação aos possíveis efeitos psicológicos do uso intensivo de tecnologias baseadas em IA, o professor Fernando retoma as redes sociais como centro do debate, ao compartilhar observações provenientes de diálogos frequentes com seus colegas. Ele destaca que os professores são particularmente sensíveis às mudanças nas novas gerações, dado o contato próximo com essa faixa etária. Nunes relata uma observação recorrente: a redução do tempo em que os alunos conseguem manter o foco em uma tarefa sem interagir.

“As redes sociais perceberam isso, e meu exemplo preferido é o YouTube, uma rede social que permite que você ‘pule’ uma propaganda após assistir alguns segundos. Dessa forma, ele te convida a interagir com o sistema e prestar atenção no que está sendo dito para não perder a hora de clicar e ficar esperando mais. O efeito óbvio é que você presta atenção à propaganda. O que as redes sociais buscam, além dos seus dados, é sua atenção às propagandas. Devemos observar então uma diminuição desse tempo de atenção”.

Para além dos efeitos psicológicos, o Portal M! perguntou ao professor como a educação pode assegurar que o desenvolvimento da Inteligência Artificial leve em consideração questões de saúde mental. Neste sentido, Fernando propõe uma reflexão sobre o período em que a internet era considerada mais saudável, antes da disseminação das redes sociais. Adicionalmente, ele sugere que os professores incentivem os estudantes a participar de comunidades online menos hostis.

“Os pais têm mais poder nessa situação e podem se informar mais a respeito dos riscos da IA – tanto as generativas quanto as de recomendação das redes – no intuito de orientar crianças e adolescentes”, finalizou. 

Sobre o professor

Fernando Nunes é um professor que ajuda outros a incrementar suas aulas com metodologias ativas e tecnologias educacionais. Bacharel e Licenciado em Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ensino de Informática aplicada à educação pelo IFRJ, possui experiência como coordenador de inovação, professor de Física, professor de Pensamento Computacional e Ciências na rede particular de ensino.

Também atuou como laboratorista de Física e Robótica Educacional e como professor de laboratório de Física. Seu foco de pesquisa atual é o ‘Pensamento Computacional na Educação Básica’.

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