Os fatos e as narrativas
Por Adilson Fonseca*
“Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida.” – Mahatma Gandhi (1869-1948) foi um líder pacifista indiano que lutou pela independência da Índia e pela paz entre hindus e muçulmanos. Ao defender a luta não violenta, criou uma nova forma de resistência, tornando-se referência e uma celebridade mundial.
Existem três tipos de verdade. A minha, a sua e a verdade dos fatos. Esta última é a única que não é levada em conta na CPI da Pandemia (Comissão Parlamentar de Inquérito) instalada há três meses no Senado. Ali só prevalece a narrativa, transformada em verdade, e por isso mesmo, as lonas do circo que parece ter se transformado a comissão já não se sustentam, e a despeito de todos os esforços dos seus dirigentes, ela afunda na incredulidade dos seus conteúdos e já não esconde mais o seu viés ideológico como seu objetivo único: a derrubada do atual governo.
O texto narrativo possui como característica alguém que possa contar a história. Este é o papel do narrador ao contar a ação que envolve personagens, tempos, espaços e conflitos. O narrador pode ser observador e contar os fatos apenas sob a sua ótica, mas pode também estar inserido na história como um personagem. E como a ele é facultado a opção de contar a história de um fato sob o seu ponto de vista, esta pode ser direcionada de acordo com suas convicções, ideologias e crenças.
E o que se vê na CPI da Pandemia é um direcionamento grotesco, de acordo com as ideologias dos seus principais dirigentes. Dessa forma, se criam narrativas a bel prazer do relator da comissão, senador Renan Calheiros, corroborada pelo presidente, senador Omar Aziz, e do chamado G-7, que é o grupo de outros cinco senadores, de um total de 11, que fazem oposição ao presidente da República Jair Bolsonaro.
Com um veredito já pronto antes mesmo de se ter iniciado o processo investigatório, e fazendo ilações bizarras, a CPI conseguiu a proeza absurda de identificar um crime de corrupção sem que haja qualquer materialidade do fato, onde não se gastou um único centavo e se consumou qualquer processo que apontasse os supostos atos ilícitos. No inusitado, determina-se a quebra de sigilos sem sequer serem ouvidos os acusados, e a estes, quando em depoimentos, são dirigidas interpelações intimidatórias, com ameaça de prisão, quando estes respondem à luz dos fatos, mas em desacordo com o que quer ouvir o relator e o presidente da comissão.
No malabarismo e contorcionismo em que se deparam semanalmente os senadores que controlam a CPI da Pandemia, há espaços para glorificação de quaisquer personagens que venham com narrativas contra o governo federal, mesmo que não haja comprovação das denúncias, e a crucificação dos que apresentam fatos comprobatórios que contradizem as denúncias. A verdade dos fatos, então, é deixada de lado em prol das narrativas que são apresentadas por cada um dos senadores que se opõem ao governo. O que prevalece é o que pensam o presidente e o relator da CPI, independente da realidade comprobatória dos fatos.
Nas narrativas enredadas pela CPI da Pandemia, o governo do presidente Jair Bolsonaro é genocida e responsável pelas 533.488 (dados da última segunda-feira) mortes pelo Covid 19, e é contra a vacinação da população. E até mesmo é chamado de “serial killer” como definiu uma colunista da Folha de São Paulo. Governadores e prefeitos surgem nas narrativas como os responsáveis pela vacinação da população, mas os fatos revelam o contrário: que é o Governo Federal quem compra e paga as vacinas.
No genocídio que vem ocorrendo no Brasil, conforme as narrativas presentes na CPI da Pandemia, o presidente Jair Bolsonaro é o responsável pelas 533.488 mortes. Já os fatos revelam que o Brasil é o 4 país que mais vacinou no mundo, com 147.335.318 doses de vacinas distribuídas, das quais 114.597.869 já foram aplicadas. E tem 17.588.312 pacientes recuperados da doença, de um total de 19.089940 infectados. Mesmo sem fabricar uma única dose de vacina, o Brasil só está atrás dos três grandes fabricantes de vacina e insumos, que são a China, Índia e Estados Unidos, em número de vacinados, e superando até mesmo o Reino Unido, que fabrica a vacina Astrazeneca/Oxford.
O desespero em que parece viver, ante a realidade dos fatos, a CPI da Pandemia envereda por um caminho tortuoso e sem volta, em que a credibilidade, a imparcialidade e o bom senso deixaram de existir.
“Onde a vergonha morre, nascem os expedientes vergonhosos”. – Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) – Escritor, romancista, cronista e dramaturgo português.
* Adilson Fonseca é jornalista e escreve neste espaço às quartas-feiras.
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