E se o amor se esborrachar?

Por Gerson Brasil*


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Ana Cristina 09/02/2022 08:00 Artigos

Gosto de Roque porque não segue a metereologia. O sabor do vento opera mutações, arrebenta saias, corre atrás de idosos, os empurra contra as paredes e as pernas das moças têm dificuldade para manter o salto em cima da calçada, a arrastar detritos e às vezes bicicletas que não estavam amarradas no poste. Certa vez alguém me confidenciou ter a fome que a perseguia sumido repentinamente, em razão de saborear, ainda sentada no banco da praça, de poucas árvores e mudas construções, carnes grelhadas, frango sem muito sal e musse de chocolate em segundos que estavam fora do relógio, mas na companhia do vento.

Quando o vento rodopia e o cobre de perfumes e alcácer de pastéis matizados com quase todas as letras do alfabeto, sem nenhuma hierarquia, a soberba de dispor tantas e quantas imitações a desafiar a escolha que a fome fará, Roque Bispo dos Santos joga a indiferença sobre o casaco e parte rumo ao Norte.

Desviou para o Sul ao atravessar a rua e anotou no diário da barba, do bigode e do nariz, o dia, a hora, o movimento das nuvens, velocidade do vento, água secando no passeio e se daria tempo de chegar a casa, sorri e dizer: ” Faz tempo que não tenho um dia como hoje  e se amanhã, chover, ou fizer sol, pouco importa, não estarei no mesmo lugar de  hoje e nem de ontem, e nem de quando me diziam ser perigoso carregar dinheiro no bolso, a se igualar a uma bandeja de prata ou de ouro debaixo do braço, numa rua cheia de desconhecidos, extraños”.  Sentava na cadeira, despia os sapatos, se aborrecia com as meias e quando os pés estavam nus maltratava as unhas com uma tesoura, pacientemente; e sem chegar ao término abria a porta, alçava a varanda, e tentava adivinhar se havia chuva na vizinhança, ou sol estarrecedor, capaz de provocara enfarto e coceiras. ” Se amanhã chover vou  me dirigir para o Sul, lá também chove, mas não me incomoda, estaré con ropa blanca y limpia para fazer frente a essas mudanças repentinas, aborrecimento Intimidatório a que todo se curvam, como se não tivessem uma mulher para amar.

Estou na América do Sul, por cá os carros não ficam enterrados na neve e nem as cabeças são afligidas por granizos. O medo desenterrado da imprudência faz a tempestade e promove o comércio de roupas e equipamentos, como chapéu, sombrinha, óculos que saem de moda e voltam, como se estivéssemos vendo o mesmo filme em variadas estações, casacos, volumosos e as perigosíssimas echarpes, voluntariosas e sabor a mi. Bairros e su esposa gostavam de passear na avenida principal de modo aleatório para não ter de dividir o sabor da caminhada com algum inconveniente, um amigo fora da hora e com todo cuidado a evitar bandidos, assaltantes. Há alguns dias me disse que sentia saudade desses momentos breves de felicidade e confessou que ‘ahora es muy peligroso’. Narrou que viu uma mulher pendurada numa grade, de média altura, estrangulada com uma echarpe anil, mas tinha no pulso o relógio, as pérolas ainda sinuosas, e os anéis. Faltava o dedo mindinho.

Não faltava, corrigiu; olhando de perto, percebi que ele estava dobrado para trás da mão, talvez estivesse quebrado, mas só os médicos para encerrar a questão. Lembro-me de um acidente na mesma mão, que a acompanhou numa viagem de navio, quando atravessava o estreito de Bósforo celebrando o casamento.

Tenho minha própria metereologia, não por desaforo à ciência; as penalidades que sofremos quase diariamente abençoam o infortúnio, que não conseguimos extinguir. Não me apavoro, se faz calor, nem busco recompensas geladas, podem me estragar a garganta.

A água que não se sabe de onde vem, golpeia a cabeça e a nuca e com ajuda do vento destrói as hermosas umbrellas; parece-me cambiar o tempo. Um bom chapéu e um bom uísque dissolvem as aflições e a estupidez sempre crescente.

Quando o vento trilha devagar, retiro o chapéu da cabeça, e os cabelos me recompensam, discretamente sorriem. Estou feliz? E se o amor se esborrachar? A metereologia se torna uma idiotice?

 
A Morte da Virgem, 1604 [1] e 1606 (ou 1602).  Michelangelo Merisi da Caravaggio. Museu do Louvre, em Paris.

*Gerson Brasil – secretário de Redação da Tribuna da Bahia
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