Autor retrata os afetos sob a ótica e vivência do homem preto e gay
“Ao meu pai; à sensibilidade das mãos dos homens pretos”. Com esta dedicatória que Marcelo Ricardo, poeta natural de Pojuca (BA), insere o leitor no universo poético, afetivo e sociológico de ‘Aos Meus Homens’ (Malê, 2021), livro que marca sua estreia solo no mercado editorial. E já se constata, desde o ponto de partida, o […]
“Ao meu pai; à sensibilidade das mãos dos homens pretos”. Com esta dedicatória que Marcelo Ricardo, poeta natural de Pojuca (BA), insere o leitor no universo poético, afetivo e sociológico de ‘Aos Meus Homens’ (Malê, 2021), livro que marca sua estreia solo no mercado editorial. E já se constata, desde o ponto de partida, o redesenho da figura social que o homem negro desempenha no imaginário coletivo. Numa construção social amparada numa imagem de força, macheza e virilidade, há possibilidade para a sensibilidade?
Sim! Nos mais de cem poemas divididos em quatro partes, Marcelo confirma esse questionamento, perfilando a si e aos seus, e versejando histórias de vida, onde demais personagens também se entrelaçam à construção da identidade do eu-lírico. Da infância à fase adulta, recebendo a benção dos mais velhos e mais velhas, entramos no ifá literário sugerido pela capa onde, uma mão negra de matizes coloridas joga os búzios e, simultaneamente, é um tronco que arvora múltiplas narrativas, onde o afeto floreia em abundância.
Ricardo nos fala do homem que “desfez o laço, retirou o nó da gravata; borboletou” (Curió), subvertendo as normas em sua vivência onde “desmunhecar é envergadura de poder” (Adé). Do homem que honra o matriarcado e reverencia à ancestralidade, o seu suporte de esteio existencial e orientação no decurso de vida. Do homem que ama, que ama outros homens, e que também almeja ser amado, para além do campo da objetificação e da performance pretendida.
O escritor consegue fazer uma miscelânea particular através de escritos que perfazem vivências de sujeitos pretos, e é nesse ponto que sua obra se enriquece: o prazer dos encontros, a beleza das raízes e a potência de vida coexistem com o medo da morte, com a sombra nefasta do racismo, com a violência da homofobia e o preterimento afetivo. A costura dos contrastes é feita com a sensibilidade da narrativa de Ricardo, potencializada por seus lugares de fala e existência, a nos lembrar que a dureza de um baobá também é adornada com a sutileza das flores (Flor da Baobá).
Marcelo preconiza a afrografia, assim como Conceição Evaristo a escrevivência. Tais neologismos apontam para a possibilidade de reconstrução das narrativas negras pelo toque, transe, temor e trajetória de quem as tece. Num momento em que masculinidades (sobretudo, negras) são amplamente debatidas no campo epistemológico, a obra surge como mais uma referência para os estudos nessa linha. É um livro antirracista, de amor, de pensamento decolonial e de filosofia ancestral. Haja troncos!
Como complemento da obra, o projeto multimídia ‘Adé’, disponibilizado no Youtube, traz o que seria a concepção imagética de algumas poesias na performance de Marcelo Ricardo e artistas convidados, como a drag queen Barbárie Bundi no poema ‘Me Chame de Mãe’, e os dançarinos Felipe Moreira e Ian Morais que fazem do texto ‘Nego do Outro’ uma passarela para o vogue, dança criada por gays negros do cenário cultural norte-americano no fim dos anos 80. Tudo isso adornado por um visual afrofuturista com peças criadas por Bixa Costura, num trabalho que elenca e fortalece profissionais negros da cena LGBTQIA+ baiana. A afrografia escapa do papel, ocupa a tela, entra na pele, e propõe acessos a memórias que são comuns a todos . Embora a identificação de leitores pretos seja imediata, não há como passar indiferente à beleza deste baobá. Para provar, tome esta flor:
Patriarcas (Marcelo Ricardo)
muito do meu filho sou eu
o interminável, inexatidão, o inconcluso
muito do que sibilo não se separa em suas sílabas
no filho amadurece a minha história
chora calada minha infância,
está no meu filho tudo que não precisa ser forte,
a carência e o cuidado
mas meu filho é um forte que diz pra si que
não pode chorar
paira entre nossos olhos a guerra e paz,
meu filho é o esqueleto que sustém meu cajado,
sou pai da criação que encorpa o menino
há no meu filho o jeito madeira e o swing maneira
de árvore
genealogia de mim, sou pai de sua consciência
de sua cegueira, do gênio
não sei de seus amores, suas quedas,
não sei quanto dói sê-lo,
meu filho é meu desconhecido mais íntimo
*Aos Meus Homens
Marcelo Ricardo
Editora Malê, 2021
204 páginas
R$44*
*Lucas de Matos é soteropolitano, Comunicador com habilitação em Relações Públicas (UNEB) e Pós-Graduado em Comunicação e Diversidades Culturais (Faculdade 2 de Julho). É poeta e apreciador da literatura.
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