“Temos que alfabetizar as crianças na idade certa, aos 7 anos”, diz Veveu Arruda
Professor afirmou que o ensino totalmente remoto praticamente não funcionou para as séries iniciais do ensino fundamental
Conhecido por revolucionar a educação do município de Sobral, quando geriu a cidade cearense de 2011 a 2017, o professor Veveu Arruda dá palestras pelo país defendendo que a educação passe a ocupar um lugar privilegiado na agenda dos prefeitos. Com a suspensão das aulas presenciais durante o período mais crítico da pandemia ele avalia que haverá impactos profundos na área educacional, sobretudo, na alfabetização.
Arruda citou dados que mostrar que no Brasil, antes da pandemia, 55% das crianças que estavam no terceiro ano, com mais de 8 anos de idade, eram analfabetas. “Com a pandemia, esse percentual é muito mais elevado. Infelizmente eu não citei ainda uma medida exata desse percentual de analfabetismo dentro das escolas com o agravamento da Covid-19. Dois anos praticamente sem a aprendizagem acontecendo a contento. Isso traz um desafio muito grande”, explicou.
Arruda afirmou ainda que o funcionamento totalmente remoto praticamente não funcionou para as séries iniciais do ensino fundamental. Para minimizar as perdas ele recomenda ampliar a carga horária.
“A neurociência já diz que a criança deve ser alfabetizada até os 7 anos. Ele é alfabetizado no primeiro ano e consolidado no segundo ano. Quando uma criança não é alfabetizada na idade certa, ela carrega para o resto da vida um problema decorrente dessa não alfabetização. Porque ela não tem no itinerário formativo as condições para aprender os conteúdos das séries seguintes”, completou.
Segundo o ex-gestor do município cearense, o impacto na educação com esse período de pandemia vai muito além da sala de aula.
“O Brasil, infelizmente, tem além de 600 mil pessoas que morreram em função da Covid-19. Você multiplica esses 600 mil por 100, e você tem a quantidade aproximada de pessoas, familiares, amigos, que de alguma forma viveram e vivem o luto dessas pessoas que morreram. Quantas escolas, quantas redes escolares tiveram professores, alunos, pais, familiares que morreram durante a pandemia?”, argumentou.
Além do problema objetivo de não ter assegurada a aprendizagem, Veveu Arruda ressaltou o problema no campo emocional, no campo das relações humanas, “que precisa também ser trabalhado”.
“Isso ainda com as repercussões sociais, econômicas, o empobrecimento das pessoas, o encarecimento dos produtos fundamentais para a sobrevivência das pessoas. Então é preciso realmente que esse momento de retorno às atividades escolares seja visto como uma prioridade essencial, eu diria, no plano do ensino fundamental e nas redes municipais”, ressaltou.
Impacto no futuro
Questionado sobre o impacto nas gerações futuras, com a ausência de uma coordenação nacional, até mesmo de uma atuação mais clara do Ministério da Educação, ao longo da pandemia, Arruda disse que a ausência de políticas públicas nacionais no Brasil, sobretudo nos últimos anos, “é uma espécie de cúmplice do agravamento da situação da educação brasileira”.
“Por outro lado, eu vejo também uma oportunidade de empoderamento de estados e municípios que percebem que têm uma governança significativa para melhorar, ajudar a superar esse grave problema. Mas evidentemente que a ausência dessa coordenação nacional, não apenas em relação à pandemia, mas como política nacional para a educação pública brasileira”, disse.
“Essas duas ausências são muito responsáveis por um lado pela repercussão negativa da covid-19 no mundo da escola, por outro lado nas consequências danosas do que está acontecendo ainda hoje nas escolas públicas brasileiras”, completou.
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