Presidente da Unegro diz que condenação de policial nos EUA marca um novo tempo no mundo
“Impossível depois de várias movimentações e depois dessa punição a gente voltar para o ponto anterior”, afirma Ângela Guimarães
A condenação nos Estados Unidos do policial Derek Chauvin por matar George Floyd marca um novo tempo no país que costumava naturalizar a violência policial contra a população negra, sem proporcionar uma punição exemplar. De acordo com a presidenta nacional da Unegro, Ângela Guimarães, além dos EUA, os efeitos respingam na nação brasileira e outros países, onde a violência racial da polícia é tão intensa quanto.
“A gente precisa começar a levar a julgamento esses policiais que assassinam jovens negros aqui no Brasil. Esta repercussão traz essa expectativa nossa, de que os movimentos [negro] que há tanto tempo denunciam essa prática corriqueira da polícia de uso intensivo da força, de atirar primeiro, de não ter investigação quando são pessoas negras envolvidas. Que essas mudanças possam ocorrer”, afirma Ângela.

Ângela Guimarães é a presidente nacional da Unegro
Derek sufocou Floyd por nove minutos, durante uma abordagem policial. Ele foi condenado por assassinato não intencional em segundo grau, assassinato em terceiro grau e homicídio culposo.
No Brasil, um relatório produzido em 2020 pela Rede de Observatórios da Segurança, grupo de estudos sobre violência nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e Pernambuco, aponta que os negros são 75% dos mortos pela polícia.
Para a presidente da Unegro, os efeitos da condenação de Derek Chauvin coloca os EUA numa perspectiva de abrir um novo tempo. “Uma coisa que estava institucionalizada, que vinha acontecendo desse jeito, pode vim a parar de acontecer, porque a atenção da população, atenção da imprensa, as grandes mobilizações convocadas e lideradas pelo Black Lives Matter [movimento Vidas Negras Importam], não vão mais permitir que nenhum outro caso caia na impunidade”, disse.
Ainda conforme Ângela, esses aprendizado fica em todos os lugares do planeta. “A gente não pode mais tolerar e naturalizar, que a cada incursão policial na periferia de Salvador, 13 meninos no Cabula tombem. A gente não pode mais naturalizar que a cada incursão na favela carioca, crianças negras que estão dentro de casa sejam executadas”, protesta.
Em comparativo com o Brasil, Ângela conta que as mudanças no sistema da polícia nos EUA estão mais avançadas.
O que está acontecendo nos Estados Unidos é um processo de mudança de cultura. Há um impulso para alteração da legislação que diz respeito as polícias. A mobilização lá é para diminuir o orçamento das polícias, porque já percebeu que quanto mais alimentar uma estrutura policial que tem essa prática, você vai produzir mais assassinatos de pessoas negras. Há também outra dimensão, da regulamentação do uso da força, lá nos EUA está muito mais avançado que aqui”.
Mesmo assim, ela reconhece que é “impossível depois de várias movimentações e depois dessa punição a gente voltar para o ponto anterior”.
Derek vai aguardar a sentença na prisão de segurança máxima Oak Park Heights. O ex-policial foi condenado na terça-feira (20) e saiu do tribunal algemado.
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