Estrelas do axé e blocos afros festejam datas marcantes no Carnaval 2024
Portal M! ouviu grupos que fazem aniversários ‘redondos’ este ano: Ilê Aiyê completa 50 anos; É o Tchan, 30; Bailinho e BaianaSystem estão debutando
No Carnaval deste ano, diversos grupos chegarão à Avenida com motivos de sobra para comemorar. Isso porque, além de participarem de mais uma folia, completam datas importantes em 2024, a exemplo do Ilê Aiyê, que faz 50 anos; o É o Tchan, que completa 30; além do Bailinho de Quinta e da BaianaSystem, que debutam neste ano.
Dentre eles, o Mais Belo dos Belos celebra não só a sua história, mas a de todos os blocos afro do país. Com a temática “Vovô e Popó, com as bençãos de Mãe Hilda Jitolu. A invenção do Bloco Afro. Ah se não fosse o Ilê”, o bloco vai homenagear a ialorixá Mãe Hilda Jitolu durante seu desfile na Avenida.
Neste ano, o Ilê fará uma participação especial na abertura do Carnaval de Salvador, nesta quinta (8), na Praça Castro Alves, às 20h, juntando-se com grandes nomes da música baiana, como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e BaianaSystem.
“É resultado da nossa luta, da nossa resistência, da nossa teimosia. E acho que eles estão começando a ver o resultado no turismo étnico, um monte de pessoas que estão vindo aqui, através da cultura negra. Então, isso é interessante, esse reconhecimento para os outros blocos também, os outros artistas negros, para a cidade”, disse Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, ao Portal M!.
Ele também falou sobre o sentimento de ver o grupo atingir essa marca histórica. “É muito gratificante, muito emocionante, mas também muito trabalhoso. Quando criamos o bloco, nós não fizemos nenhuma dimensão de o bloco crescer, de virar referência, foi acontecendo naturalmente. E isso vai aumentando a responsabilidade”, explicou.
Vovê ressaltrou que queria ser apenas um “carnavalista”, mas a história tomou dimensões maiores. “De repente, a gente se transforma em educador, cria projetos sociais e nós começamos a incentivar outros blocos também, a ter a mesma atitude nossa. Mas é realmente isso: você completar 50 anos, meio século de existência, dando essa contribuição para a cidade, formando cidadãos de bem, é muito legal”, festeja.
Ao relembrar a história do bloco, Vovô destacou ainda momentos que marcaram a trajetória do Ilê. Entre os mais importantes, ele ressaltou a primeira viagem do grupo para a África.
“Porque você nunca imaginava, né? Que nós conseguimos essa transformação através das músicas, dos temas. Começar a mostrar a verdadeira África, não só aquela de Tarzan, aquela África que a televisão mostra, de miséria, de guerra. Então, você mostrar o que são os países da África, desenvolvidos com cultura, com educação, e você ter contribuído no resgate do orgulho de ser negro, são momentos assim que marcaram muito”, pontuou.
Além da apresentação hoje, na abertura do Carnaval, o Ilê também desfila no sábado (10), em sua tradicional e concorrida cerimônia de saída do bloco no Curuzu. O ritual de fé abre caminhos e abençoa o Ilê Aiyê, tendo à frente a ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, Hildelice Benta dos Santos.
Depois do tradicional ritual da saída do bloco, na Ladeira do Curuzu, o trio do Ilê Aiyê segue em festa para o Plano Inclinado da Liberdade. De lá, os associados fazem uma pausa até se encontrarem novamente horas depois no Corredor da Vitória, onde a entidade inicia o seu primeiro desfile em circuito oficial, o Osmar, às 2h do domingo, em direção à Praça da Piedade.
Na segunda-feira (12), às 18h, haverá a concentração no Corredor da Vitória, onde o desfile começa, às 19h, no Circuito Osmar, no Campo Grande. Comandado pelo som marcante da Band’Aiyê, o espetáculo cênico-musical do bloco sai acompanhado de um cortejo alusivo ao tema do Carnaval, com destaque para o carro que se transforma em um verdadeiro altar para a rainha e as princesas recém-eleitas.
Na terça (13), o bloco faz seu terceiro e último desfile carnavalesco com concentração às 18h no Corredor da Vitória, e desfile previsto para iniciar às 19h, também no Circuito Osmar.
Além do Ilê, festejam datas ‘redondas’ este ano os afros Olodum e Malê Debalê, que completam 45 anos, e o Cortejo Afro, que faz 25, enquanto o afoxé Filhos de Gandhy, ícone da folia baiana, comemora 75.
É o Tchan
Completando 30 anos de carreira, o É o Tchan terá um Carnaval movimentado e de muita expectativa entre os fãs, que servirá para sacramentar esse momento ímpar na história do grupo. Ao Portal M!, Beto Jamaica lembrou do surgimento, a partir do GeraSamba, e falou sobre o “perrengue” que passaram em função do nome.
“O É o Tchan surgiu do GeraSamba. Quando eu encontrei Compadre, fizemos o GeraSamba, gravamos quatro canções ou cinco do GeraSamba e aí numa dessas canções surgiu o ‘Segura o Tchan’. Foi daí que aconteceu o problema do nome”, indicou.
Compadre Washington recordou que já existia um grupo chamado GeraSamba em São Paulo, o que impossibilitou que seguissem com o nome. “Na época eu tinha registrado o GeraSamba só em nível local, a gente não tinha pretensão nenhuma de estourar para o Brasil. Quando estourou no Brasil, nós chegamos em São Paulo e já existia o GeraSamba, aí os caras vieram pra cima da gente: ‘Ou paga ou troca o nome'”, lembrou ao M!.
“Como já tinha o ‘Segura o Tchan’ estourado, botaram o nome da banda É o Tchan. Aproveitaram a música e, graças a Deus, tem males que vêm para bem. E aí deu esse sucesso todo até hoje, de 30 anos de carreira”, complementou Beto Jamaica.
Foto: Sércio Freitas
A dupla também destacou os históricos momentos vivenciados. Recentemente, os integrantes originais do grupo fizeram apresentação no Clube Espanhol, com a presença dos dançarinos Scheila Carvalho, Sheila Mello e Jacaré, além de Carla Perez. O encontro fez brilhar os olhos de todos os fãs do É o Tchan. Conforme os artistas, aquele momento foi apenas um dos que virão ao longo de 2024.
“A gente não vai parar a celebração. Passando o Carnaval, a gente vai fazer mais. Pelo Brasil ainda tem lugares que a gente não foi, que a gente vai fazer. Vamos lançar o nosso EP de 30 anos, com participações bacanas dos meninos aqui do gueto: Ed City, Oh Polêmico, Marcio Victor, em que fizemos uma homenagem ao pagode – tudo começou também com a gente. E vamos lançar o audiovisual dos 30 anos que foi gravado em Recife e a metade aqui em Salvador. Acho que vai ser um marco bacana para aquelas pessoas que viveram e aqueles que não viveram e que vão aprender agora a viver e a celebrar o É o Tchan”, disse Beto.
O cantor revelou ainda que existe a expectativa de a turnê ser finalizada com um show em Salvador. O local, no entanto, ainda não foi anunciado pelo grupo.
“Existe a possibilidade de a gente encerrar aqui. O povo está pedindo demais, e a gente vai fazer uma celebração muito legal. Não vamos dizer o lugar agora, porque é surpresa, mas vai ser muito bonito”, afirmou Beto. Há a possibilidade também de apresentações no exterior. “Tem expectativa de fazer no exterior, na Europa, na América. Estamos estudando”, indicou Compadre Washington.
Já sobre o sentimento de ver o grupo completar 30 anos, Compadre Washington enfatizou ser algo “super gratificante”. “É super gratificante saber que estamos completando 30 anos. Eu e Beto já saímos, já voltamos, mas a banda permanece em evidência, as nossas músicas de 30 anos permanecem em evidência. Já temos a quarta geração. Então, para a gente, isso é maravilhoso, saber que construímos uma coisa em 1994 que perdura até hoje, em 2024”.
Bailinho de Quinta
O Carnaval deste ano também terá espaço para o debutante Bailinho de Quinta. O grupo levará, pela primeira vez, o trio do Bailinho à Fantasia para o circuito Barra-Ondina no domingo (11) e não esconde a expectativa, conforme contou o baterista Thiago Trad.
“É um projeto muito especial, porque é uma festa que sempre aconteceu dentro dos nossos bailes. E a gente tem muito carinho por essa festa, que é o Bailinho à Fantasia. Mas a gente sempre quis levar esse clima do Bailinho à Fantasia para um movimento de rua, um bloco sem corda, e este ano a gente vai conseguir fazer isso. Então a gente está muito feliz com essa possibilidade de levar nosso trio do Bailinho à Fantasia pela primeira vez nos 15 anos do Bailinho. São 15 carnavais, então acho que é uma forma muito especial de comemorar, puxando um trio sem corda e convidando todo mundo para ir fantasiado”.
Além da apresentação, o grupo também traz o single Fevereiro, em parceria com Magary Lord.
Foto: Caroline Paternostro
Nestes 15 anos, o grupo já coleciona grandes momentos no Carnaval de Salvador, conforme lembrou o guitarrista Graco. Ele relatou um episódio do ano passado, em que o grupo desfilou, pela primeira vez, em um trio com sua estrutura própria.
“Eu acho que o Fervo, ano passado, foi um momento marcante. Foi a primeira vez que o Bailinho saiu num trio elétrico voltado para a gente mesmo. Com a nossa estrutura, um pranchão, num formato mais próximo do público. Foi muito legal. O público compareceu mesmo e foi uma experiência marcante também”, disse ao Portal M!.
Na memória, há espaço também para a primeira participação no Carnaval do Pelourinho. “Foi muito legal, no Largo do Pelourinho. O primeiro ‘Música no Parque’ que a gente fez, o primeiro show no Parque da Cidade também foi marcante, foi em 2012. São vários momentos marcantes, mas eu acho que esses primeiros contatos com o público foram realmente muito intensos, com um público mais diverso, maior. A gente teve nossa fase também de shows no Santo Antônio Além do Carmo, na Chácara Baloarte, no Pátio da Igreja, que foram muito especiais para a construção do Bailinho, para esse momento que a gente está hoje. Tudo isso foi muito importante, foi muito marcante”.
BaianaSystem
Celebrando 15 anos de trajetória em 2024, o BaianaSystem traz o tema ‘Batukerê: Toda Fé, Toda Paz’. O grupo, que já marcou presença no Furdunço arrastando uma multidão, também vai integrar a abertura do Carnaval nesta quinta-feira, no Encontro de Trios, na Praça Castro Alves.
“Esse Carnaval precisa de uma expressão: a expressão que eu quero usar é ‘toda fé, toda paz’. Porque quando eu falo paz eu digo a minha, mas eu quero respeitar a sua; quando eu digo fé, eu quero toda, então esse é um código muito importante para a gente sair para as ruas”, enfatizou Russo Passapusso, vocalista do grupo.
Foto: Divulgação/Secom PMS
“É o Carnaval de 15 anos de Baiana e, com isso, vem com um grande significado para a gente, é um Carnaval que é pós-pandemia, pós uma série de coisas que a gente vem tentando fazer ali na Avenida, falando de paz, de amor, o grito que Russo puxa de ‘É só amor’. Por isso a gente está chamando esse Carnaval de ‘Batukerê: Toda Fé, Toda Paz'”, complementou o guitarrista Roberto Barreto.
Além de marcar os 15 anos do grupo, O Carnaval deste ano marca também os 10 anos do Navio Pirata, trio do Baiana. “O Navio Pirata é algo que transformou um pensamento, mostrou outros caminhos, correu numa contramão. Por isso, a ideia de pirataria do que foi estruturado como indústria do axé, do mercado, da ocupação das ruas, com um trio menor, mais próximo do público, na contramão do que é o circuito, que não é pensado e não é produzido pelos grandes grupos que formavam esse Carnaval. Esses 15 anos de Baiana se misturam com isso”, destacou Roberto.
A agenda do grupo no Carnaval também será marcada por uma apresentação no Rio de Janeiro, no sábado (10), no Aue Festival de Carnaval 2024. De volta para a capital baiana, eles se apresentarão no Navio Pirata, na segunda (12), no Campo Grande, e no Largo do Pelourinho, na terça (13). Fechando a programação carnavalesca, o grupo vai se apresentar em São Paulo, no dia 17 de fevereiro.
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