Disputa para o Governo da Bahia em 2022 já entrou para a história
Em quase 30 anos, esta é a primeira vez que ocorre 2° turno; campanha também foi marcada por deslealdades
Desde que deixou a Prefeitura de Salvador, em 31 de dezembro de 2020, ACM Neto (União Brasil) se colocou como franco favorito ao Governo da Bahia, na disputa que ocorreria dali a dois anos. Por muito tempo, a partir início da campanha do primeiro turno, ele voava em céu de brigadeiro, disputando com um candidato pinçado do bolso pelo governador Rui Costa aos 45 minutos do 2° tempo.
Até aquele momento, Jerônimo Rodrigues, em que pese ter sido secretário de Desenvolvimento Rural e da Educação, era um mero desconhecido, sobretudo diante de nomes que estiveram no páreo, mas desistiram, a exemplo dos senadores Jaques Wagner (PT) e Otto Alencar (PSD).
A eleição de 2022 na Bahia já entrou para a história. É a primeira vez em 28 anos que ocorre o 2° turno para o governo. E mais: é o pleito em que a deslealdade prevaleceu. Há quem diga, inclusive, que é também a campanha mais suja das últimas três décadas.
As deslealdades tiveram início com a saída de Marcelo Nilo do grupo petista. Ele presidiu a Assembleia Legislativa da Bahia por dez anos. Começou no governo de Wagner e permaneceu na gestão de Rui Costa.
Desde sempre, acalentou o sonho de participar da chapa majoritária. De tanto insistir e ser preterido, rompeu com o petismo e foi para o grupo liderado por ACM Neto, onde vislumbrou possibilidade de disputar o Senado. O sonho, no entanto, durou pouco.
Insatisfeito com o descumprimento de acordo de Wagner e Rui, que o faria mandatário do estado por nove meses, o vice-governador Joao Leão decidiu romper. Ele teve tapete estendido para ingressar no “time dos azuis”. Para Leão, foi ofertada a vaga de senador.
Nilo, por sua vez, teve o sonho adiado e mergulhou na auto-ilusão de ser o candidato a vice-governador. E assim permaneceu até o início de agosto, quando inesperadamente ACM Neto escolhe a empresária Ana Coelho como vice, deixando Nilo e José Ronaldo ‘comendo poeira’ e lambendo as feridas.
Mas a deslealdade e as mudanças de lado não ficaram por aí. Foram muitas. Algumas até constrangedoras, a exemplo do prefeito de Inhambupe, Nena (PSD), que apoiou ACM Neto no 1° turno e abandonou o barco logo após o resultado das urnas, que teve Jerônimo quase liquidando a fatura – faltaram cerca de 49 mil votos.
Assim como Nena, o vereador de Salvador, Joceval Rodrigues (Cidadania), e o presidente do PSC, Heber Santana, só esperaram computar todos os votos para deixar Neto e rumar para Jerônimo.
A campanha não apenas revelou pecadilhos políticos. Tragédia também aconteceu. Em Itajuipe, o subtenente Alves, que fazia a segurança de ACM Neto, foi assassinado enquanto dormia.
O sargento D’Almeida, que também fazia parte da segurança de Neto foi alvejado. Ele ficou ferido gravemente, mas sobreviveu. Eles iriam pernoitar na cidade e no dia seguinte participariam de atividade de campanha em Itabuna.
A Secretaria de Segurança Pública ainda não elucidou o crime.
Nacionalização da disputa
Enquanto era cômodo para o candidato do PT, Jerônimo Rodrigues, nacionalizar a disputa, tendo em Lula um imbatível cabo eleitoral, ACM Neto optou pelo caminho mais espinhoso da neutralidade.
Durante toda a campanha, ACM Neto fez questão de ressaltar que os problemas do estado seriam resolvidos por ele. Disse ainda que procuraria a ajuda do presidente que fosse escolhido pelos brasileiros.
No seu oposto, Jerônimo usou Lula como muleta o quanto pôde. Inclusive, em sabatina feita na TV Record, ele citou o nome de Lula 16 vezes.
Não foi muito diferente da propaganda eleitoral. Além de citar o nome do ex-presidente que pretende voltar ao Planalto, imagens de Lula nas duas vezes em que esteve em Salvador e vídeos em que o líder pede votos para Jerônimo foram usados à exaustão.
O ‘tanto faz’ de Neto e a ‘muleta’ de Jerônimo foram explorados nos debates. No 1° turno ocorreram três (Band, TVE e TV Bahia), mas Neto foi apenas ao último.
No 2° turno, não houve debates porque Jerônimo se recusou. Os possíveis embates viraram entrevistas. E Neto, que se dispôs a debater, foi sabatinado na Band, TV Aratu e na TV Bahia.
Autodeclaração racial
A campanha também foi de polêmicas, a exemplo da autodeclaração de raça/cor de ACM Neto. Ao se declarar pardo, Neto fez com que seus opositores usassem o discurso de que ele tentou se favorecer com cota do fundo eleitoral, o que foi descartado pelo candidato. Mas o assunto rendeu, virou piada na boca de seus adversários e ganhou repercussão nacional.
Polêmica também foi a divulgação de pesquisas de intenção de voto. Com a exceção do AtlasIntel, todos os institutos davam vitória a ACM Neto, sem, inclusive, cogitar um 2° turno.
O cenário traçado pelos institutos de pesquisa fez com que os ‘vaqueiros de votos’ de ACM Neto entrassem no clima de ‘já ganhou’, prejudicando o resultado da disputa. Constatação feita pelo próprio candidato.
Por essas e outras, a disputa ao Governo da Bahia já entrou para a história. E caso Neto se sagre vencedor, terá havido ineditismo também no fato de o senador eleito ser do grupo oposto ao do futuro ocupante de Ondina.
Já Jerônimo Rodrigues, agora líder das principais pesquisas de intenção de voto, se vencer, consolida de vez a hegemonia do PT no cenário político baiano.
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