“A pobreza gera deficiência e a deficiência gera pobreza”, diz Mara Gabrilli, vice de Simone Tebet

Apenas 28,3% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar (14 anos ou mais de idade) estavam inseridas no mercado de trabalhoa


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redacao 28/09/2022 11:50 Política

Indignada pela morte da estudante e cadeirante Geane da Silva de Brito, 19 anos, assassinada a facadas e com um tiro deflagrado por um adolescente encapuzado na Escola Municipal Eurides Sant’Anna, em Barreiras, a candidata a vice-presidente da República na chapa de Simone Tebet (MDB), Mara Gabrilli (PSDB), afirmou durante entrevista ao editor-chefe do Portal M!, Osvaldo Lyra, ao programa Nova Manhã, da rádio Nova Brasil FM, que “a pobreza gera deficiência e a deficiência gera pobreza” e “um país que deixa os mais vulneráveis para trás nunca vai se desenvolver”. 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) indicam que, em 2019, cerca de 17,3 milhões de pessoas com dois anos ou mais de idade (8,4% dessa população) era portadora de algum tipo de deficiência, e cerca de 8,5 milhões (24,8% ) de idosos estavam nessa condição.

De acordo com a PNS, apenas 28,3% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar (14 anos ou mais de idade) estavam inseridas no mercado de trabalho, ante 66,3% daquelas sem deficiência. O levantamento ainda apontou que cerca de 67,6% da população PCD não tinha instrução ou não concluiu o ensino fundamental – percentual que era de 30,9% para as pessoas sem nenhuma das deficiências investigadas.

Mara, que também é psicóloga, publicitária e senadora do estado de São Paulo, é uma mulher tetraplégica, após sofrer uma acidente de carro em 1994. De lá para cá, mesmo sem mover o corpo do ombro para baixo, ela decidiu nunca mais parar a lutar pela igualdade de Pessoas com Deficiência (PCD) no Brasil.

Ao citar a morte da jovem, ocorrida na última segunda-feira (26), no Norte da Bahia, Mara falou sobre violência que envolve PCDs e a correlação com a pobreza do país. 

“Quando a gente fala de segurança, de vulnerabilidade, as pessoas com deficiência são as que sofrem mais. Hoje, a Bahia tem uma taxa de desemprego de 15,4% de público PCD, enquanto que a média nacional de quem não tem deficiência é de 10%. Em todos os aspectos, esse público acaba sofrendo mais, seja na violência contra a mulher na qual as meninas com deficiência são as que sofrem mais violência e a gente vive um momento em que a cada duas horas uma mulher morre no Brasil. Somos o 5º país que mais mata mulheres”, lamentou.

“Neste momento, é quase impossível não falar da Geane da Silva Brito. Eu fiquei muito emocionada porque eu também sou cadeirante e fiquei me imaginando na pele dela porque eu passei por várias situações em que, se eu precisasse correr, não conseguiria e teria sido prejudicada”, refletiu a senadora sobre o ato barbárie que vitimou a jovem. 

Além das conquistas políticas no Brasil, Mara conseguiu alcançar uma conquista inédita para o país ao ocupar uma cadeira na Organização das Nações Unidas (ONU) para um mandato de quatro anos em um comitê do qual nunca houve um representante brasileiro – o Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Durante sua passagem pela corporação internacional, Mara disse que pode observar mais de perto a realidade dos PCDs em outros países e contrastar com o Brasil.

“Quando a gente fala de violência, a gente pode extrapolar para a discriminação, para o racismo e no Brasil, por exemplo, temos um racismo energético e racismo ambiental. Energético porque mais de 10% da população não tem acesso a água potável e a iluminação, sendo a maioria pobre, preta e com alguma deficiência. Onde tem pessoa com vulnerabilidade tem uma pessoa com deficiência e mais de 80% dos PCDs vivem abaixo no nível da pobreza”,explicou Mara Gabrilli. 

Ainda segundo a candidata, 8 em cada 10 pessoas com deficiência vivem com um salário mínimo na Bahia. “Não adianta, a pobreza gera deficiência e deficiência gera pobreza”, lamentou. Enquanto parlamentar, Mara foi relatora da Lei Brasileira de Inclusão (antigo Estatuto da Pessoa com Deficiência) que entrou em vigor em janeiro de 2016, sendo considerada a mais moderna em termos de legislação para a categoria. 

“Temos uma legislação robusta que traz direitos para as pessoas e que é até referência fora do país, mas ela precisa ser cumprida na sua íntegra e é muito importante que mães e familiares de pessoas com algum tipo de deficiência conheçam as leis brasileiras de inclusão e conheçam os seus direitos”, alertou. 

“Muitas das pessoas não sabem dos direitos que elas têm. Não sabem que hoje não se pode cobrar a mais de uma pessoa que queira entrar em curso, escola, por exemplo, só porque ela tem uma deficiência, porém muita gente ainda cobra mesmo tendo a lei. Jamais, uma pessoa pode negar matrícula para uma pessoa com deficiência porque isso pode gerar cadeia, multa e o gestor que incidir pode perder o direito de gerir uma escola”, enfatizou. 

*Confirma a entrevista na íntegra:

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