“O suporte básico de apoio à prevenção ao suicídio é negligenciado pelo SUS”, aponta psiquiatra
Lúcio Botelho afirmou que a situação impede até o debate no Brasil sobre a adoção do chamado suicídio assistido, que é legalizado em alguns países
Segundo o especialista em doenças mentais, falar sobre suicídio assistido e expor seu ponto de vista profissional sem se distanciar de sua opnião pessoal é complicado, uma vez que não há regulamentação sobre a prática no Brasil e, principalmente, falta aparato público para as atenções básicas sobre as doenças mentais.
“No Brasil, o tema de suicídio assistido é bem delicado de se abordar. É fato que há países que já têm esta prática, e aqui cabe diferenciar um do outro: o suicídio é quando há um ato deliberado da pessoa em tentar contra a própria vida; o assistido é quando há o emprego de uma terceira pessoa que vai auxíliar em fornecer o método do suícidio [geralmente são medicamentos], que pode ser um profissional de saúde ou um amigo e/ou familiar, a depender do local”, explicou Lúcio Botelho.
Em entrevista ao Portal M!, o médico disse que falar sobre a temática é difícil, uma vez que no Brasil, esse suporte – como ocorre na Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Colômbia e Espanha, além de Suíça, Alemanha, Canadá, África do Sul e em cinco estados dos Estados Unidos – será visto como crime, previsto no artigo 122 do Código Penal.
Na Constituição, induzir, instigar ou auxiliar a prática do suicídio tem pena prevista de dois meses a seis anos de reclusão, caso a pessoa não morra; ou de um a três anos de prisão, se o resultado não for o óbito, mas lesão corporal de natureza grave.
“Além de ser visto como crime, do ponto de vista ético, a prática também não é aceita. Mas, em um futuro distante, se algum dia o tema for abordado, ele deve ser debatido para portadores de doenças graves e/ou autoimunes e/ou intratáveis. Mas o tema deverá ser debatido, e esse é um processo longo, com formação de comitê de julgamento e ético à parte”, ressaltou Lúcio Botelho.
A prevenção ao suicídio tem sido amplamente abordada pela imprensa na última década. Em 2014, o Centro de Valorização à Vida (CVV) criou a campanha nacional Setembro Amarelo, para abordar a importância do tema e promover a desmistificação do tabu do suicídio diante da sociedade brasileira.
Porém, o assunto sempre foi abordado pelo cinema de uma forma romantizada, proporcionando o desleixo para a real atenção que a temática necessita, como em Sete vidas, de Gabriele Muccino, e Como eu era antes de você, de Thea Sharrock. Este último, aborda o suicídio assistido do protagonista.
O psiquiatra Lúcio Botelho explicou a perspectiva de um suicida, uma vez que ainda há um entendimento intrínseco na sociedade sobre o viés supostamente egoísta de quem atenta contra contra a própria vida.
“Ninguém tenta suicídio por capricho. A gente já vem de uma cultura muito forte sobre não falar do suicídio. Mas falar sobre o suicídio ajuda a inibir o pensamento, e orientar a pessoa a procurar uma ajuda médica contribui para a valorização da vida”, explicou.
“Eu entendo a condição clínica das pessoas e, em alguns casos, o quadro é irreversível, mas há pessoas que se encontraram, que encontraram o sentido da vida novamente. Na década de 1980 e 1990 tivemos o sociólogo Betinho que contraiu Aids e lutou até o fim pela conscientização. Deu um outro sentido à vida. Ele lutou pela vida dele e pela vida de milhares de outras pessoas”, pontuou o especialista em doenças mentais.
Herbert de Souza, o Betinho, foi reconhecido pela sua trajetória de luta contra as injustiças sociais. Portador de hemofilia – uma grave doença genética – e do HIV, o sociólogo morreu em 9 de agosto de 1997, aos 61 anos.
De todas as causas de mortr, o suicídio lidera o ranking mundial, fazendo mais vítimas do que o HIV, malária ou câncer de mama, além de guerras e homicídios, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
De acordo com a instituição internacional, mais homens morrem devido ao suicídio do que mulheres (12,6 por cada 100 mil homens em comparação com 5,4 por cada 100 mil mulheres). As taxas de suicídio entre homens são geralmente mais altas em países de alta renda (16,5 por 100 mil). Para mulheres, as taxas de suicídio mais altas são encontradas em países de baixa-média renda (7,1 por 100 mil).
Embora os números ainda sejam alarmantes, o número de casos caiu entre as duas últimas décadas, de 2000 a 2019, com a taxa global diminuindo 36%, variando de 17% na região do Mediterrâneo Oriental a 47% na região europeia e 49% no Pacífico Ocidental. Mas na região das Américas, as taxas aumentaram 17% no mesmo período.
No Brasil, conforme o Ministério da Saúde, ocorreram 112.230 mortes por suicídio entre 2010 e 2019, com um aumento de 43% no número anual de mortes – de 9.454 para 13.523. Análise das taxas de mortalidade no período demonstrou aumento do risco de morte por suicídio em todas as regiões do Brasil.
“Isso se dá ao fator de risco associado ao comportamento suicida. A profissão médica, assim como algumas outras, passam por um estresse muito grande. Os agentes psicológicos disparam na frente. O acesso a drogas letais sob o forte estresse diário associados ao comportamento suicida elevam os dados”, pontuou.
No entanto, o médico explicou que o fator ‘resiliência’ tem um efeito positivo sobre a vida das pessoas.
A OMS aponta que grande parte dos suicidas sofre de algum transtorno mental e que a prática poderia ser prevenida com a ampliação do acesso à saúde. Botelho explicou que a OMS apresenta dados de que em 90% dos casos de suicídio, havia uma patologia por tras.
seguida, o abuso de álcool e outras drogas, e esquizofrenia, com 10%”, pontuou.
Além da identificação patológica, Botelho também chamou a atenção para alguns sinais que a pessoa pode transmitir [em casos de não saber se sofre por alguma doença] como pedir perdão para eventuais acontecimentos/problemas, bilhetes, procura por escrita de testamentos, além de conduta mais religiosa e alterações comportamentais, como isolamento e sentimento de tristeza.
“A família, algumas vezes, tem dificuldade para notar os sinais, mas o acolhimento de familiares e amigos é muito importante, principalmente em realizar o primeiro processo de escuta, mesmo não sendo profissional. Esse processo deve ser feito de forma empática a acolhedora e nunca recriminar ou menosprezar os sentimentos da pessoa. Depois, orientar e prestar todo apoio necessário para a pessoa ir a um médico”, orienta.
“Esse é o primeiro passo. Quando se identifica que o familiar tem algum problema mental e tem pensamentos suicidas, o simples fato de chamar para uma conversa pode desestimular aquele desejo momentâneo. Elas estão em sofrimento mental e podem estar num quadro de depressão. Estimular uma ajuda pode salvar aquela vida”, ressaltou.
Em Salvador, o Ministério da Saúde oferece, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), os Centro de Atenção Psicossocial (Caps) que podem ser consultadas no site do Ministério Público da Bahia (MP-BA). O atendimento é gratuito pelo SUS.
Já pela rede estudual, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Bahia – CIATox-BA (antigo Ciave) inaugurou o Serviço de Psicologia para tratar especificamente do suicídio. O serviço fica localizado na Rua Direta do Saboeiro, Estrada Velha do Saboeiro, no Cabula.
Já para quem anda de metrô, a CCR sempre promove o Cantinho do Desabafo na estação Acesso Norte e Rodoviária. A escuta é gratuita feita com voluntários, de forma totalmente sigilosa.
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