Historiadores apontam que povo baiano foi agente principal na luta pela Independência

Enquanto no Brasil houve um processo mais tranquilo, a Bahia foi palco de batalhas sangrentas e mortes, conforme relataram especialistas ao Portal M!


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Bruno Brito 02/07/2022 08:00 Cidades

O início da guerra pela consolidação da Independência do Brasil na Bahia ocorreu em 25 de junho de 1822, na então Vila de Cachoeira, no Recôncavo. Foi a partir dali  que começou a série de batalhas que culminaram na vitória dos brasileiros sobre os portugueses, em 2 de julho de 1823.

Diferente do que foi observado ao  longo do processo que levou à declaração da Independência do Brasil, um ano antes, em São Paulo, o cenário na Bahia foi muito mais turbulento, em meio a um momento de grande insatisfação e disputas no cenário político da época.

“De fato, o período de maior turbulência começa em 1822 e se concretiza no 2 de julho de 1823, com a participação popular. Aqui de fato, tivemos confronto, tivemos batalhas e mortes, na luta pela independência”, explica o historiador e professor, Rafael Dantas.

Embora diversas personalidades tenham se destacado neste processo, como Corneteiro Lopes, Joana Angélica, Maria Felipa de Itaparica, pescadores em saveiros no Recôncavo da Bahia, o grupo coletivo de mulheres de Saubara chamado de Caretas do Mingau e Maria Quitéria de Jesus – que disfarçou-se de homem para combater ao lado dos soldados – entre tantos outros, o principal personagem que contribuiu para a retirada das forças portuguesas sob o comando do brigadeiro Madeira de Melo foi o povo da Bahia.

 “O processo de Independência da Bahia foi, antes de qualquer coisa, um grande marco na participação de diversos agentes, negros, brancos, integrantes com noção militar e outros sem nenhuma noção militar, cidadãos comuns, mulheres, sertanejos, pessoas do litoral e do interior, todos juntos em busca de uma emancipação do governo português”, avaliou Dantas.

Segundo o historiador, foi o povo que esteve presente nas diversas batalhas que ajudaram o Dois de julho a se tornar realidade, a exemplo da Batalha do Pirajá, que foi um grande marco na luta pela Independência.

Em 8 de novembro de 1822, as tropas brasileiras impediram o avanço lusitano para o interior do estado, impondo uma derrota militar e política às forças portuguesas. As principais lutas nesse processo ocorreram no Recôncavo Baiano e, aos poucos, os brasileiros foram retomando as cidades que eram dominadas por Portugal, culminando na conquista de Salvador, em 2 de julho de 1823.

Por conta desse contexto de luta e de participação popular, Dantas aponta a Independência da Bahia como o evento de maior importância de caráter cívico popular que temos no país.

“O Sete de Setembro, por exemplo, não consegue ter o mesmo apelo que o Dois de Julho aqui em Salvador. Ele foi abraçado pelo povo e, além de ser uma data histórica e cívica, é uma data popular, que lembra e toca nas lembranças, na nossa história, que toca nesse lado afetivo. Antes de qualquer coisa, é uma data que o povo baiano abraçou e entendeu a importância. Então, a representatividade está para além de qualquer marco ou fato histórico, é um evento sentido pelo povo da Bahia e interpretado com relevância por todos os baianos”, afirma.

 

Festa popular

As celebrações da data passaram por vários modelos e cada vez mais se observa uma apropriação popular do espaço festivo. De acordo com Dantas, as comemorações começaram ainda em 1823 e se acentuaram nas décadas seguintes do século XIX.

“Se em algum momento do século XIX, tínhamos um espaço que buscava valorizar o contexto cívico, mas já com o popular presente, no decorrer dos anos seguintes, o popular sobressai, em todos os sentidos. Em meados do século XX, [há] uma participação grande de políticos, que acabam quase disputando espaço com o Caboclo e a Cabocla, mas faz parte de qualquer festividade”, pontuou. 

Foto: Rodolpho Lindemann (1904)

Dantas destaca ainda, que do ponto de vista estético, o Monumento ao Dois de Julho é o principal marco da Independência. “No largo do Campo Grande, uma construção inaugurada em 1895, do escultor Carlo Nicole, coroada por um Caboclo, uma peça muito simbólica”, define.

Da mesma forma, o historiador e membro do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Milton Moura, afirmou que depois que os dirigentes e o exército português foram expulsos da Bahia, em várias cidades se organizou o cortejo do Caboclo e da Cabocla.

Segundo ele, em algumas cidades, apenas o Caboclo está presente, enquanto em outras, só a Cabocla. Já em Salvador e em Itacaré, ambos dividem os festejos.

“O Caboclo era um ícone indígena, a figura dele é de um índio ou índia. Só que ele arremata, recapitula a luta e a presença de todos os setores subalternos da sociedade: mulheres, indígenas, mestiços, escravos, negros livres, todo mundo que pegou em armas para defender a liberdade, e todo mundo que lutou pela Independência. Por isso, o Caboclo é reverenciado por todo mundo que vai ao cortejo do Dois de Julho, e onde ele aparece, é o dono da festa”, explica.

 

Marco no processo

Um dos marcos do processo de consolidação da Independência do Brasil na Bahia, sem dúvida, foi a entrada do Exército Pacificador, que, segundo a historiadora Tamires Costa, trouxe um momento de exaltação da população.

“Ele traz esse momento de comemoração e de definição daquela guerra, onde os baianos e os brasileiros saem vitoriosos da guerra que se iniciou em 1822 e só vai finalizar em 1823”, explicou.

Na avaliação da historiadora, o processo de Independência ocorreu a partir de uma necessidade, sobretudo, de autonomia econômica e política das elites baianas, que se viam presas às questões relacionadas à sua dependência de Portugal.

Além desse aspecto, Costa destaca que a partir das lutas na Bahia, se pensa em uma sociedade independente, em uma nação chamada Brasil, o que torna o Dois de Julho não apenas um marco na história do estado, mas do país.

“A partir do 2 de julho de 1823 não se conhece outro fato, outro momento que tenha alguma ação, algum evento relacionado a qualquer influência prática de Portugal em relação ao Brasil. Então, é um marco para a história do nascimento da nação, dessa pátria”, defendeu.

Por isso, a historiadora revela que “gostaria muito”, que o Dois de Julho fosse uma data reconhecida por toda a população brasileira, e não apenas pelos baianos, sobretudo em função da influência das batalhas travadas em solo local como marco da separação entre Brasil e Portugal.

“Essa representação do quanto o povo foi importante na consolidação da Independência do Brasil, de quantas pessoas desconhecidas, homens e mulheres – principalmente porque os pelotões e os grupos que se organizaram contra os portugueses eram em sua maioria desse povo […] Isso foi marcante na história do nosso país. Então, o Brasil, enquanto país independente, só nasce a partir do Dois de Julho, logo, [a data] não só é importante para a Bahia, mas para o Brasil inteiro”, finalizou.

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