“Temos uma sociedade extremamente desigual, o ensino remoto não favorece a todos”, diz educadora

Para Carla Belo, professora por 17 anos e há seis oferendo aulas de reforço, lugar de aluno é na escola


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Ana Paula Ramos 20/02/2022 19:00 Cidades

A pandemia de Covid-19 mudou o cenário da educação no Brasil – e para pior. Uma das primeiras providências das autoridades, em nome da segurança sanitária, foi fechar as escolas e impor o ensino remoto. Dois anos depois, com a retomada das atividades presenciais, o efeito colateral da medida é devastador: dois a cada três estudantes precisam de reforço escolar.

A educadora Carla Belo, da Adaptepedagogia, conhece bem esta realidade. Hoje, ela oferece reforço a 15 alunos, aplicando uma metodologia lúdica e individualizada, mas labutou em salas de aula por 17 anos. Embasada na sua vasta experiência, ela resume a questão: “Temos uma sociedade extremamente desigual, o ensino remoto não favorece a todos”.

A pesquisa “Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e Suas Famílias”, realizada pelo Datafolha, identificou que, em dezembro de 2021, mais de 800 mil estudantes continuavam sem receber nenhum tipo de atividade escolar, mesmo estando matriculados.

Um em cada quatro estudantes encerrou o ano sem nenhuma atividade presencial. Entre os estudantes de baixo nível socioeconômico, esse índice chegou a 34%.

“Se pensarmos na escola pública, o contexto é ainda mais desanimador devido a todas as questões estruturais e sociais vividas por alunos e profissionais”, atesta Carla Belo.

Ela ressalta que mesmo entre as famílias socialmente menos vulneráveis, as realidades são muito distintas.

“Enquanto tivemos as que conseguiram se ajustar, organizar um espaço, manter o silêncio durante o período de aula, houve as que não conseguiram o mínimo de organização. Sem falar nas famílias que não tinham aparelhos suficientes para o uso de todos (no trabalho e na escola) e/ou acesso à internet”, elenca.

Carla considera o ensino remoto uma válvula de escape diante da situação imposta pela pandemia. No entanto, mesmo adotando uma postura crítica diante do modelo, a educadora reconhece que ele trouxe alguns ganhos, sobretudo na área da tecnologia.

“Professores e escolas tiveram que se ajustar. O uso de slides, vídeos, músicas e pesquisas em tempo real enriqueceram as aulas e proporcionaram uma aprendizagem mais satisfatória para esta geração que sabe tudo quando o assunto são os eletrônicos”, pontua.

As vantagens, entretanto, não se sobrepõem, segundo a educadora, às perdas afetivas e cognitivas. “A escola é o lugar do aluno. Com todos os cuidados de higiene necessários, uso de EPI’s adequados, um ambiente limpo, todos vacinados dentro do seu grupo e consciência de coletivo, voltaremos ao convívio tão necessário para o desenvolvimento cognitivo e emocional de todo cidadão”, ressalta.

Carla tem 17 anos de experiência em sala de aula. Crédito: Arquivo Pessoal

 

Defasagem escolar

A consequência mais evidente do ensino remoto é a defasagem escolar, que resulta atualmente na alta demanda por aulas de reforço.

Carla pontua que a pandemia trouxe um cenário diferente. “As crianças sempre chegaram ao grupo/ano com diferentes demandas, mas o isolamento e as aulas no modelo online não contribuíram com o desenvolvimento da maioria dos alunos, levando-os à defasagem escolar”.

Além disso, a educadora aponta o aumento da evasão escolar e o surgimento de problemas emocionais como algumas das possíveis consequências da demora na retomada das atividades presenciais nas escolas.

Patrícia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social – que encomendou a pesquisa do Datafolha -, vai na mesma linha de avaliação.

“Foi difícil o fechamento das escolas para todas as etapas de ensino, mas especialmente difícil para as crianças menores, especialmente na fase da alfabetização. Isso colocou um peso nas famílias, de uma expertise que não é delas. Alfabetizar é uma das tarefas mais difíceis”, afirma.

Carla Belo concorda: “Ficar em casa com as crianças na frente de uma tela não foi uma experiência satisfatória para muitas famílias. A possibilidade do filho vivenciar um ‘ano perdido’ assustou mães, pais, avós, que optaram pelas aulas particulares no modelo individualizado”.

 

Modelo presencial traz evolução

A pesquisa mostra ainda que 88% dos estudantes da rede pu?blica de ensino tiveram as escolas reabertas em 2021. Segundo os pais e responsáveis, 83% dos alunos que retornaram às atividades presenciais esta~o evoluindo no aprendizado.

De acordo com as fami?lias, estes estudantes estão mais animados (86%), mais otimistas com o futuro (80%), mais independentes para realizar as tarefas (84%) e mais interessados nos estudos (77%) do que aqueles que continuaram no ensino remoto – cujos índices são, respectivamente, 74%, 72%, 72% e 60%.

“Um ponto muito importante é o apoio das famílias à retomada presencial, à vacinação e ao papel dos professores. A gente observa, mais uma vez, o apoio muito grande ao papel do professor e a necessidade de prioridade e valorização desse profissional. Afinal, foram dois anos em que tiveram contato com professores de forma próxima como nunca ocorreu”, pontua Patrícia Guedes.

O estudo mostra também a percepção das famílias de que a gestão educacional deve priorizar mais oportunidades de capacitação para os professores (23%), garantir o aumento salarial dos docentes (43%), melhorar a infraestrutura das escolas (30%) e ampliar o uso de tecnologia na educação (22%).

Para Patrícia, a parceria com as famílias será essencial no processo de retomada da aprendizagem.

“Que essa parceria entre escola e família só se fortaleça ainda mais, porque é nessa retomada das aulas presenciais, com o diagnóstico [de aprendizagem dos alunos], que a gente vai ter a real dimensão e a real magnitude do desafio do ensino à nossa frente nos próximos dois, três anos, pelo menos”, afirmou.

 

* Com informações da Agência Brasil

Leia também:

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